quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Sobre “Todos os poemas” 3 vols., de Ruy Belo - João dos Reis



“Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. (...) Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me. (...) ... o poeta denuncia-se e denuncia, introduz a intranquilidade nas consciências, nas correntes literárias ou ideológicas...” escreve Ruy Belo (1933-1978) em “Breve programa para iniciação ao canto”, uma introdução ao volume II.

Escrevi nos anos 80 uma resenha de um romance para o Jornal “Primeira Hora” de Osasco; no livro, o poeta e seus versos eram sempre lembrados pela personagem. Durante todos esses anos, planejava comprar uma antologia do poeta português; encontrei apenas os volumes II e III das suas obras completas, e somente em 2015 os encomendei à livraria.

Sou um leitor de poesia desde os 12 anos; e, confesso, não sei comentar ou explicá-la; deixo fluir as imagens, os sons, as emoções. Decidi dar a palavra para o poeta, transcrevendo trechos de dois dos seus longos poemas. Uma observação: ele aboliu a pontuação.

“Um dia uma vida”

Não vazes tantas vezes vozes rente ao vento
e não escutes os pássaros nem mesmo o mar
não oiças nem sequer o vento se soprar
pois o tempo tem voz o tempo fala
Está atento abertos os ouvidos ouve
A vida é uma vasta música suave
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Há uma luz lunar que ilumina o mar
e esparge pela areia pela maré cheia
o poema de espuma que lhe cabe recitar
e me fala das cinzas a que se reduz
o céu breve e restrito de uma noite
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Preciso de dormir e só na pedra tumular
eu poderei poisar de verdade a cabeça
Ingresso para sempre no mais puro escuro
Fui um inveterado tripulante da memória
oiço os passos do tempo sei a minha idade
e deito-me com toda a dignidade
É inútil bater amigos inimigos a esta loisa
onde eu repouso como simples coisa
E o tempo poisa deixa finalmente de passar
vol.III, pp.122-129, início e fim do poema


“Sim um dia decerto”

Um dia não terei ninguém nunca tive ninguém
não saberei destes dias de nevoeiro no verão
quando as pessoas no ar se recortam rígidas nas silhuetas
nuvens de névoa tornam indeciso o horizonte
e a neblina nitidamente naufraga nas águas
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Um dia sentirei ou pressentirei os pulsos ligados pelo aço dos anos
Ficarei horas e horas com a última perna cruzada pacificamente sentado
com a face amadurecida de luz ou corroída pela escuridão
sereno como uma superfície com a cara coberta de barba sozinho na terra
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Sim um dia decerto será assim ou mais ou menos assim
e nem saberei mesmo que um dia distante
sem saber porquê achei provável que um dia decerto fosse assim mais ou menos assim
vol. III, pp. 58/61 trechos do inicio e fim do poema

“Todos os poemas” 3 vols., de Ruy Belo, Assirio & Alvim, Lisboa, 2004, 2ª ed.,

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