segunda-feira, 2 de novembro de 2015

REFLEXÕES sobre “Volta à terra”, de João Pedro Plácido (Portugal, 2014, 78 min.) - João dos Reis




“Eu quero lançar raízes
e viver dias felizes
na outra margem da vida.
Solta os cabelos ao vento,
muda em riso esse lamento,
apressemos a partida.
Aceita o desafio,
embarca nesse navio,
rumo ao sol e ao futuro.
Corta comigo as amarras
que nos prendem como garras
a um passado tão duro”.
duas estrofes do poema “Asas”, de Maria Luisa Baptista, musicado por Georgino de Souza, cantado pela fadista Katia Guerreiro./

Para Helio Leite de Barros, professor de Filosofia

“Volta à terra”, do diretor João Pedro Plácido, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, me trouxe velhas recordações. O filme mostra imagens que povoaram a minha infância até à juventude, quando convivi com meus avós portugueses. Os Martins Ferro vieram das aldeias de Penhas Juntas e Falgueiras, da província de Trás-os-Montes, na mesma região montanhosa da aldeia Uz, cenário do documentário.

Há poucas cenas de festa, de alegria; mesmo em momentos de confraternização nas refeições, há um sentimento de tristeza, de desolação, de ausência de esperança dos camponeses. Quase não há jovens – todos partiram para outros países e continentes em busca de trabalho; é uma comunidade em extinção. A agricultura de subsistência é baseada na plantação de batata e cevada; há algumas vacas e o pastoreio de carneiros – como minha avó Elisa me contou muitas vezes.

Algumas cenas incendiaram minha memória: a tosa dos carneiros – de onde vem a matéria prima para as roupas e os cobertores. Os parentes enviaram para meus avós uma manta artesanal de lã – que usei até ela se desintegrar já na idade adulta. Foi a presença mais marcante dos aldeões trasmontanos nas minhas noites de sono.

Um dos principais alimentos é a carne suína – e o filme me conduziu ao passado: também na casa dos meus avós na minha cidade natal, Duartina, SP, a matança do porco, o esquartejamento, o salgamento e a conservação em latas de banha, era um trabalho coletivo. A participação de todos os familiares, minha inclusive, no preparo das linguiças foi inesquecível: todos contribuíam com a mão de obra para enchê-las com a carne triturada e temperada.

Hoje,os habitantes da região de Uz têm eletricidade, assistem televisão, se informam sobre o mundo. Eu, até aos 7 anos de idade, vivi nas fazendas de meu avô paterno à luz de lamparina e lampiões; o único meio de comunicação era o rádio a pilha – onde ouvi a música dos meus antepassados: a melancolia dos fados entrou na minha vida para sempre.

O inverno rigoroso do Norte de Portugal, com a neve cobrindo a cidadezinha de branco, trouxe de volta as cartas que lia dos parentes: não podiam sair de casa durante vários dias. Minha avó era pastora – e nos contou muitas vezes sobre o caminhar com os carneiros nas montanhas geladas.

O filme indica um outro futuro para o jovem de 21 anos que escolheu permanecer na aldeia, trabalhando na lavoura e no pastoreio? E também para outro personagem que abandonou a França e preferiu fazer o caminho de volta para a sua terra?

Quais as perspectivas hoje de escola, de trabalho e de lazer para os filhos dos trabalhadores do campo de Uz? Não encontrei um cenário de otimismo nos poucos diálogos do filme: os velhos falam de doenças – e todos reclamam muito, o que foi uma novidade para mim, porque meus dois avôs, Marcelino e José, eram calados - e viveram o exílio no Brasil em um triste silêncio.

Saí da sala do Cinearte da Avenida Paulista no último sábado carregado de imagens e emoções. Uma interrogação me perseguiu até a volta para casa: se meus avós e minha mãe (que nasceu em Portugal) tivessem permanecido na aldeia, qual seria o meu destino? Minha descoberta da música e da literatura – que me marcaram desde a infância – seria possível? E os filósofos seriam os meus companheiros desde a adolescência? As aulas de Filosofia com o professor Hélio Leite de Barros no Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares (Ceneart) em Osasco, e depois, com os mestres da Universidade de São Paulo, foram uma iluminação – e também a minha redenção.

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