quinta-feira, 26 de novembro de 2015

“Clara Schumann – compositora x mulher de compositor” - João dos Reis


LIVRO:
“Minha técnica pianística está ficando para trás. Isto sempre acontece quando Robert está compondo. Não tenho uma única hora no dia inteiro para mim. Se ao menos eu não piorasse tanto. Minha leitura musical também foi deixada de lado novamente, mas espero que não seja por muito tempo dessa vez...” escreve Clara Wieck Schumann no diário que ela e Robert Schumann escreveram a quatro mãos.

Eliana Monteiro da Silva conta a história de Clara Schumann (1819-1896), pianista e compositora do século XIX, esquecida pela história, ou sempre lembrada associada ao marido. Friedrich Wieck, o pai de Clara, fabricava instrumentos, alugava partituras, organizava concertos, mas era conhecido como professor de piano e de música. A mãe era uma talentosa cantora, descendente de uma família de músicos. Desde criança, Clara dava concertos e viajou em turnê por várias cidades da Europa

Robert Schumann tinha 19 anos quando veio a Leipzig estudar com Wieck – e mais tarde, se casou com Clara, apesar da oposição do pai dela. Foi o casamento musical do século XIX – ela, uma pianista e compositora; ele acabou dedicando-se à criação musical, estudando contraponto e composição, e se tornando um dos grandes compositores do romantismo.

Clara trabalhou como concertista quase toda a sua vida – até aos 72 anos. Teve que cuidar dos oito filhos (um deles morreu com um ano de idade), da casa – e, como ela desabafa na carta citada no início, sobrava pouco tempo para a música. Viveu em várias cidades da Alemanha – Leipzig, onde nasceu, Dresden, Dusserdorf – e, depois da doença e morte do marido, em Berlim e Frankfurt.

Eliana pretendeu fazer justiça à “obra musical de qualidade da compositora que permanece pouco explorada pelos músicos e ouvintes ... (...) a música de Clara Schumann é única e individual, embora discuta as questões e os problemas propostos por seus colegas compositores” (p. 97).

A vida da pianista-compositora foi marcada pela tragédia, que atingiu alguns dos seus filhos. A contrapartida dessa triste história foi a amizade com Johannes Bramhs; ele nunca se casou, e manteve com Clara por toda a vida um relacionamento construído com afeto e lealdade. Em 1892, no aniversário dela, ele lhe escreveu: “Deixe que um pobre forasteiro lhe diga que seus sentimentos nunca diminuíram da veneração, e que ele deseja à pessoa mais querida tudo de bom, caro e lindo, do fundo do coração” (p.49).

Metade do livro é reservada para apresentar a relação completa das obras da compositora e um breve histórico comentado das composições. A parte final, sobre as “Variações sobre um tema de Robert Schumann opus 20”, faz uma análise da peça musical – que é um resumo da dissertação de Mestrado da escritora na ECA-USP.

“Clara nunca sofreu, em sua vida, rejeição na publicação de suas peças, nem na apresentação pelos palcos em que tocou. De lá para cá, não só ela como muitos outros compositores (homens e mulheres) foram excluídos pelo mercado musical ocidental”, escreve Eliana no último capítulo do livro (p. 97). A Radio Cultura FM de São Paulo tem se dedicado a revelar ao público ouvinte as músicas de Clara Schumann – e foi por um dos programas diários que descobri a publicação do livro. Um presente para quem pretende conhecer a vida e a obra da pianista-compositora.

“Clara Schumann – compositora x mulher de compositor”, de Eliana Monteiro da Silva, Ficções Editora, São Paulo, 2011, 112 pp.


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