quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Um Exemplo de professora - Risomar Fasanaro



Sempre me lembro com muito carinho de todos meus professores, mas na impossibilidade de escrever sobre cada um, escolhi minha professora de português do curso ginasial em um colégio de freiras: dona Celina Plácida Costa. Ela me marcou para sempre por duas razões que aqui irei contar.
A primeira é que foi ela a primeira pessoa a me incentivar a escrever e a segunda foi por ter participado do momento mais constrangedor de toda minha vida escolar.
Meu pai tinha comprado um bar em sociedade com um conhecido dele. Talvez nos primeiros meses o bar tenha tido algum lucro, não sei, a verdade é que em menos de um ano, o bar começou a dar o maior prejuízo e meu pai se viu forçado a desligar-se da sociedade sem receber um centavo sequer, e a assumir uma dívida muito grande.
É claro que sempre pairou no ar suspeitas de que meu pai fora furtado, mas não havia como provar, além disso só Gandhi seria mais pacifista que meu pai.
Com aquele prejuízo, nossa vida mudou muito. Só se comprava o estritamente necessário, nada supérfluo entrava em nossa casa.
O valor da mensalidade do colégio era de 450 cruzeiros na época, e passando por aquela crise financeira, meu pai não pode pagar duas mensalidades. Uma manhã, uma das freiras entrou na classe e, sem nenhum gesto de delicadeza, se dirigiu a mim na frente de toda a classe e disse: “a partir de amanhã você não poderá assistir às aulas porque sua mensalidade está atrasada. Só poderá voltar ao colégio, quando seu pai pagar.”
Na época eu era extremamente tímida. Além de muito magra para os padrões da época, havia o sotaque...Sim, o sotaque era motivo de risinhos disfarçados das colegas, o que me tornava mais tímida ainda.
Quando ouvi a ordem da freira, senti que o chão sumira sob meus pés, as lágrimas me saltaram, e mesmo no meio daquele turbilhão de ideias que envolviam a humilhação, a vergonha, me lembrei que no dia seguinte haveria prova de Português. O que aconteceria? Eu ficaria sem nota?
Como explicaria depois à professora de Português, o porquê da minha ausência? A sala ficou em absoluto silêncio. Um silêncio constrangedor. Nenhuma das colegas fez qualquer comentário. Terminadas as aulas do dia, fui embora.
Em casa contei à minha mãe o que havia acontecido, e ela disse não poder fazer nada. Eles não podiam pagar a mensalidade e pronto. No dia seguinte acordei pela primeira vez na vida, sem ter o que fazer. Triste, fiquei imaginando as colegas fazendo prova.
Estava assim, quando alguém tocou a campainha e minha mãe foi atender. Era Aridelson Turíbio, hoje advogado de renome em Osasco, naquela época um adolescente. Viera de bicicleta até nossa casa trazer um recado. O pai dele tinha uma loja de material de construção, e era lá que havia o único telefone do bairro. Ele recebera um telefonema do colégio. De quem? Da professora Celina. Ela mandava dizer que estava esperando que eu chegasse ao colégio, para poder começar a prova de Português. Que eu fosse logo, pois a classe inteira estava me esperando.
Eu disse que não iria. E Aridelson contou que ela dissera que só faria a prova quando eu chegasse. Comecei a chorar e disse que não iria, que sentia vergonha pelo que havia acontecido, mas minha mãe me convenceu: “você vai decepcionar essa professora que gosta tanto de você? Que se recusou a fazer a prova sem você? Vá logo botar o uniforme e ir correndo pro colégio...Foi o que tive de fazer.
Não sei como percorri um dois quilômetros de minha casa até o colégio. Quando cheguei, a classe estava toda em silêncio. Cada aluna com a prova em branco sobre a carteira, imóvel. Dona Celina me entregou uma folha e eu fiz a prova.
Nunca contei essa passagem de minha vida. Guardei esse segredo como se eu fosse culpada. Segredo partilhado apenas pelas colegas que estudaram comigo.
Somente hoje homenageio dona Celina Plácida Costa, aquela professora corajosa que enfrentou aquela instituição religiosa ultraconservadora, em defesa de uma de suas alunas.
É nela que me inspiro diante de alguma injustiça.


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