quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Gália, SP: a Música dos Mestres - João dos Reis




“Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. (...) ao escrever, dou à terra, que para mim é tudo, um pouco do que é da terra. Nesse sentido, escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra. Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me”. Ruy Belo, Breve Programa para uma Iniciação ao Canto.

“Música dos Mestres” da Rádio Gazeta iniciava com a Ária da corda sol de Bach. Era uma hora de programação – que me acompanhou desde a infância em Gália, no centro-oeste paulista.

Meu irmão frequentava o conservatório público da cidade vizinha, Garça – e foi por ele que descobri o programa diário, de segunda a sábado, das 13 às 14 horas. Durante muitos anos, fui ouvinte assíduo dos grandes compositores. Mais tarde, morando em Osasco, pela Rádio Eldorado e Cultura de São Paulo.

Como foi possível um piá, caipira do interior, ouvir a música que sempre foi privilégio da aristocracia e, mais tarde, da burguesia? Devo ao prefeito João Ferreira (1960-1963) o projeto que mudou minha vida intelectual para sempre: a criação da biblioteca pública na cidade de Gália. E, em Garça, a existência de um conservatório público. Foram as duas fontes de cultura e informação importantes para mim: me encantei pelas palavras e pelos sons.

Não cheguei a tocar nenhum instrumento; descobri que não tinha talento para me tornar um pianista, e sim, uma paixão pelo mundo das palavras. Em 1961, quando cheguei à cidade proletária de Osasco, as ruas eram de terra, o esgoto era a céu aberto, o curso ginasial era à noite. Foram os grandes mestres da música e da literatura que me acompanharam na aventura inglória de sair da realidade de pobreza e miséria.

Canto Orfeônico era o nome da disciplina no currículo escolar (hoje, da 5ª a 8ª série). Duas professoras, Vera Corentchuk no Gepa (Ginásio Estadual de Presidente Altino) e Marina no Ceneart (Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares) foram duas grandes incentivadoras: para não esquecer a arte dos grandes mestres.

O primeiro toca-discos que comprei nos anos 70 era portátil – e não cheguei a ter nenhum disco de música clássica. Continuava ouvinte dos programas da Rádio Eldorado e, depois da Rádio Cultura.

Lembro dos anos que vivi no Litoral Norte de São Paulo: estava isolado, não tinha rádio ou televisão. Comprei nos anos 70 um aparelho de som Gradiente – que tenho até hoje; mas foi apenas com a chegada dos CDs é que iniciei minha pequena coleção.

Quase não frequentei salas de concertos ou o Teatro Municipal de São Paulo. Nos anos 80, ganhei de um programa da Rádio Cultura a entrada para uma apresentação do pianista Arnaldo Cohen no Teatro Cultura Artística – uma experiência emocionante. Hoje, a revolução tecnológica torna possível ver e ouvir as grandes orquestras e os pianistas, violinistas - uma viagem fascinante com um toque no computador.

Os programas da FM Cultura comentam, às vezes, a vida dos compositores. Muitas vezes me emocionei com o drama vivido por Robert e Clara Wieck Schumann, com a morte trágica de Piotr Ilicht Tchaikovski, com a exilio de Frederic Franciszek Chopin, com a ausência dos sons no final da vida de Ludwig van Beethoven – para citar alguns dos mestres mais admirados.

Foi ouvindo emocionado o Concerto número 2, opus 18, de Serguei Rachmaninoff, que iniciei essa crônica dedicada aos que me aproximaram da música e da literatura. Reflito às vezes que a iniciação musical e literária que relato para vocês foi uma educação sentimental, mas também a minha salvação: para não submergir em um mundo sem arte e beleza.

NOTA: a citação de “Breve Programa para uma Iniciação ao canto”, de Ruy Belo, in “Todos os poemas”, vol. II, Assírio & Alvim Ed., Lisboa, 2004, pp. 9/10

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