terça-feira, 27 de outubro de 2015

ANOTAÇÕES/REFLEXÕES sobre “O sonho do celta”, de Mario Vargas Llosa - João dos Reis



Roger David Casement aguarda na prisão a sentença de morte por enforcamento, acusado de traição pelo governo inglês em 1916. É um livro de ficção de Mario Vargas Llosa, mas a reconstrução da vida de um personagem esquecido pela História. Em capítulos alternados, o aventureiro que percorreu três continentes, e funcionário da diplomacia inglesa que recebeu o título de nobreza, reflete sobre o seu passado – um “cidadão do mundo, o mais universal irlandês que conheci”, nas palavras do poeta William Butler Yeats.

Participou de duas expedições ao Congo Belga no inicio do século 20, lideradas por Henry Morton Stanley e Henry Shelton Sanford. Foi a descoberta da realidade de uma África desconhecida. Depois, já trabalhando para o Foreign Service, refez as viagens pelo interior do país para escrever um relatório sobre as atrocidades dos colonizadores contra as populações nativas. Descobriu o horror da escravidão, dos castigos, das torturas: o desaparecimento de aldeias,o espetáculo das costas dos trabalhadores das plantações todas listradas pelas chicotadas, as mãos e os pênis esmagados pelos militares da Force Publique. Foi o inicio do questionamento do “papel civilizatório” do europeu. “Graças ao Congo, tinha descoberto a Irlanda, queria ser um irlandês de verdade, conhecer o seu país, apropriar-se da sua tradição, sua história e sua cultura”.

Roger David Casement esteve a serviço alguns anos no Brasil – em Santos, Rio de Janeiro e Pará. Depois esteve no Peru, acompanhado de uma comissão, para escrever um outro relatório sobre a violência contra as populações indígenas da Amazônia pela Peruvian Amazon Company, de Julio Cesar Aranha, de extração de látex. O ponto de partida foi a denúncia do jornalista de Iquitos, Benjamim Saldaña Roca no jornal “La Felpa” e “La sanción” – que foi assassinado e “desaparecido”; e do engenheiro norte-americano Walter Hardenburg no jornal inglês “Truth”.Foi a descoberta de um outro mundo de crueldade e barbárie: os indígenas eram capturados para trabalhar nos seringais – e torturados, mortos, desaparecidos.

A publicação do “Relatório de Putumayo” em 1912, que se chamaria “Blue Book” (Livro Azul) foi um outro marco na visão do cônsul: a Europa, e particularmente a Inglaterra, buscava “levar a civilização”, escravizando, destruindo as culturas originais dos povos da Amazônia.

Torna-se um militante e um dos dirigentes do movimento independentista da Irlanda. Parte para a Alemanha para conseguir armas e apoio à insurreição: o Levante da Semana Santa de 1916 foi reprimido, os lideres foram presos, fuzilados ou condenados à longas penas.

Vargas Llosa registra a controvérsia dos “Black Diaries”, diário em que o nacionalista irlandês escreveu sobre sua vida sexual - e o romancista nos diz que “é impossível chegar a conhecer de forma definitiva um ser humano, totalidade que sempre escapa a todas as redes teóricas e racionais que tentam capturá-la”.

Mr. John Ellis, o carrasco, pediu em um sussurro para Roger David Casement abaixasse a cabeça, e colocou a corda em volta do seu pescoço: “se prender a respiração será mais rápido, sir”. Ele obedeceu. A família e os amigos tentaram enterrar o corpo na Irlanda – mas somente em 1965 os ossos do líder revolucionário foi repatriado – e recebido como os restos mortais de um herói.

Vargas Llosa reconstruiu a saga de “um dos grandes lutadores anticolonialistas e defensores dos direitos humanos e das culturas indígenas do seu tempo, e um sacrificado combatente pela emancipação da Irlanda”.

Fui leitor de todos os romances do escritor peruano. Esse último livro foi uma imersão na cultura da violência nos países colonizados pelos europeus – que ainda está presente no nosso cotidiano com as prisões, torturas e desaparecimentos dos moradores da periferia das grandes cidades – a maioria deles, descendentes dos que sobreviveram à escravidão e ao genocídio.

“O sonho do celta”, de Mario Vargas Llosa, Objetiva, Rio de Janeiro, 2011, 390 pp.


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