sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ANOTAÇÕES sobre “Estive lá fora”, de Ronaldo Correia de Brito- João dos Reis




Para Edna Juçara Rodrigues

Na primeira página do livro, Cirilo, estudante de Medicina, está em uma das pontes em Recife. Olhando para as águas barrentas do rio Capiberibe, lembra das humilhações sofridas de colegas e professores, que não perdoavam sua rebeldia. “Os suicidas jogam com a morte uma peleja cheia de malícia e sedução, trabalham estratégias ao longo de anos e o que chamam de impulso é apenas a cartada final” (p.7).

É uma história de amizade entre Cirilo e o irmão Geraldo - e a reconstituição do período da repressão e da resistência ao golpe militar de 1964. Os dois irmãos foram para a capital pernambucana estudar na universidade, mas estão distantes um do outro. Geraldo, estudante de engenharia, é militante estudantil, e depois um revolucionário que prega a resistência à tirania; Cirilo, um nihilista confesso. A diferença entre eles: um rebelde que se engajou na luta armada - o outro, revoltado que “desejava que fossem destruídos valores sociais e politicos da civilização ocidental, abrindo caminho para uma nova sociedade que ele não sabia ainda qual era” (p. 198)

Luis Eugenio e Celia Regina, os pais dos dois irmãos, vivem em uma cidade do sertão cearense dos Inhamuns. Para acompanhar a trajetória de Geraldo,o pai monta um livro de capa dura em que cola noticias e recortes de jornais do filho militante de organização de esquerda, anota observações, tentando reaproximar-se dele pela escrita. Os pais eram de famílias do campo onde “ninguém conhecia o lazer, entregando-se aos afazeres da agricultura, da pecuária e da casa numa rotina interminável e estafante, que envelhecia as pessoas cedo e as matava antes do tempo”. (p.84).

É uma história de amizade de Cirilo e Leonardo, que vivem na Casa do Estudante Universitário. “Eram dois estudantes {de Medicina} pobres do interior, deslumbrados com o rio cheirando a esgoto, comovidos com a absoluta falta de perspectivas, dispostos a descobrir a poesia da cidade. Empanturravam-se de livros, cinema e música” (p.59).

É também a aventura de um trio amoroso entre Cirilo, Leonardo e Paula - e não é uma história de amor que tem um final feliz.

O romancista retoma os dilemas dos que viveram a ditadura militar: a ausência de futuro, a angústia das prisões, das torturas, dos desaparecimentos – os encontros e desencontros de uma geração. Cirilo vive o conflito permanente, como os pais, à espera de receber noticias do destino do irmão engajado na resistência.

“Acredito que a literatura pode fazer uma autêntica revolução. O que há de verdade nos livros se torna um bem coletivo e a invenção dos escritores se transforma num patrimônio da língua” (p.218), diz o personagem principal do livro de Ronaldo Correia de Brito, médico-escritor que nasceu no Ceará, mas vive há muitos anos em Recife.

Nas últimas páginas do livro, a caminho do plantão do hospital, Cirilo “experimentou uma conhecida angústia, o abandono e o sentimento desagradável de que algo se partia dentro dele. Desde pequeno sofria esses sobressaltos” (p. 284).

Já no hospital, os amigos Leonardo e Silvio vieram com a noticia ouvida no rádio: um estudante de engenharia fora alvejado com vários tiros na ponte da Torre – e poderia ser o irmão Geraldo. Chamam um táxi, e no caminho, ele pede para parar na ponte da Madalena, desce do carro, descalça os sapatos e as meias, despe a camisa e decide caminhar como um equilibrista sobre a amurada. Os dois amigos o chamam do carro: “Vamos, Cirilo”.

“Estive lá fora”, de Ronaldo Correia de Brito, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2012, 294 pp.

Um comentário:

  1. Oi João, fiquei com vontade de ler o livro. aliás, vc sempre me proporciona sugestões maravilhosas. Obrigada, abraços.
    Edna Juçara

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