sábado, 31 de outubro de 2015

A chuteira do Saci - Risomar Fasanaro



Era o dia do aniversário de Moisés e o dia amanheceu bonito, como sempre é o dia do aniversário da gente. Um dia especial. Mesmo que chova, a gente acha a chuva linda e pensa até que choveu especialmente para nos agradar. Se fizer frio, a gente acha o frio gostoso; se fizer calor, dizemos que é um dia lindo de sol!
Moisés morava no interior e acordava bem cedo todos os dias para, junto com a mãe, dona Zafira, começar a cuidar das plantas e dos animais.
Ao contrário de muitas crianças que vivem no interior, mas sonham com a cidade grande, com a capital, Moisés adorava viver no campo. Gostava do cheiro de mato que se desprendia da terra quando chovia, achava bonito o galopar dos cavalos e embora os amigos caçoassem dele, parava tudo que estava fazendo no final da tarde, para ver o pôr-do-sol. Como podia ficar tão bonita a cor de laranja junto do lilás?

Ele ficava bravo quando os amigos diziam que aquilo era coisa de maricas. Reagia sempre à altura: não é. Não é só mulher que acha as coisas bonitas. Homem também acha e nem por isso é menos homem. E tem mais: homem que é homem não sente medo de chorar...

Dona Zafira criava duas cabras e várias galinhas, entre elas, Vaidosa, a mais mimada do terreiro. Vez por outra ela entrava na sala, subia na cristaleira antiga que havia na sala, e que pertencera à avó de Moisés, e ficava horas se mirando no espelho. Por esse motivo, a mãe e ele deram a ela o nome de Vaidosa.

Naquela manhã, logo cedo Zafira abraçou e beijou o filho, desejando a ele toda a felicidade do mundo. Depois disse:
-quando terminar de tomar o café, Moisés, quero que você vá até o ninho de Vaidosa e apanhe seis ovos, para eu fazer um bolo. E hoje, quando sair da escola, você pode convidar Gabriel, Otávio, Lucas e Tarsila para a gente comemorar seu aniversário.
-Precisa não, mãe, hoje é um dia como outro qualquer...

-Não, não , não, meu filho, hoje não é um dia qualquer. É o dia do seu aniversário e você não sabe, para uma mãe, o que significa o aniversário de um filho. Há dez anos, quando você nasceu, eu senti a maior emoção de toda minha vida, quando olhei seu rostinho; por isso, gosto de comemorar esse dia todos os anos. Pra mim, é sempre uma data especial. A mais especial de todas.

-Mas, mãe, o pai nem está mais aqui com a gente...

-Não está, mas se ele fosse vivo também iria comemorar. Ele lhe adorava e vendo hoje como você vai bem na escola, iria sentir muito orgulho de você.

-Está bem, mãe, eu vou lá pegar os ovos da Vaidosa.

Moisés foi ao fundo do quintal, entrou no galinheiro e encontrou exatamente seis ovos no ninho. Parecia até coisa encomendada. O menino tirou o primeiro e, muito desastrado que era, deixou-o cair, espatifando-se.

- - Nossa, a mãe vai ficar danada da vida comigo...

-Nem bem chegou a concluir a frase, quando viu que alguma coisa muito extraordinária estava acontecendo. Pois não é que dentro do ovo havia um apito?

- -Um a-pi-to??? Exclamou admirado. Quem já viu uma coisa dessas? Aposto que foi o Lucas ou o Gabriel que colocou esse apito dentro do ovo e depois colou a casca só pra me assustar. Só pode ter sido um dos dois. Sabendo que é meu aniversário, eles imaginaram que eu ia vir aqui buscar os ovos, pra mãe fazer um bolo...

Com o maior cuidado, Moisés apanhou o segundo ovo do ninho. Girou-o entre os dedos, devagar para ver se havia alguma marca de colagem e quando se certificou de que estava inteiro, resolveu quebrá-lo.

- Pois sabe o que havia dentro do segundo ovo? Ah...Você não pode imaginar.... Para surpresa ainda maior do menino, havia uma chuteira. Uma chuteira lindíssima, bem pequenininha. Ele tomou-a entre as mãos e mais surpreso ainda ficou quando a viu pouco a pouco crescer e tornar-se do tamanho exato do seu pé direito.

- -Meu Deus! Mas é igualzinha à do filho do professor de matemática! Eu nunca pensei que pudesse ter uma chuteira dessa em toda minha vida!

Sem esperar nem mais um minuto, quebrou o terceiro ovo. Já que tantas coisas extraordinárias estavam acontecendo naquele dia, com toda certeza o outro pé da chuteira estaria em algum daqueles ovos. Mas para decepção do garoto, não estava. Ele encontrou apenas um ioiô. Quebrou o quarto ovo e novamente ficou decepcionado, encontrou uma colher de chá. Já estava quase desistindo e resolvendo levar os dois últimos ovos para ver se com eles a mãe conseguiria fazer o bolo, quando resolveu tentar a sorte. Quem sabe, o par da chuteira não estaria em um dos dois?

-Dessa vez, contudo, a surpresa foi a maior que Moisés poderia ter: em vez da tão sonhada chuteira, o que lá se encontrava era uma menininha bem pequenina, toda encolhida dentro do ovo.

- Será que estou sonhando??? pensou ele. Como essa menininha entrou aí?

Ele foi quebrando com cuidado o restante da casca e ajudou a garotinha a sair.Com muita delicadeza, colocou-a no chão. A menina ficou olhando-o um tempão e seu semblante demonstrava estar tão surpresa quanto ele. Depois de alguns segundos, a garota começou a crescer, crescer... até ficar quase da altura dele. Então, recobrando o fôlego, Moisés conseguiu perguntar:

-De onde você veio?

E a menininha, olhos muito vivos, muito espertos, como só a Emília de Monteiro Lobato tem, respondeu com outra pergunta:

-E eu sei?

E ele, mais preocupado em encontrar a chuteira do que em entender todo aquele mistério, fez-lhe outra pergunta:

-Onde está o outro pé da chuteira?

-Que pé? Que chuteira? O que é isso?

O menino mostrou a chuteira e explicou:

-Isso aqui...Onde está o outro igual a esse?

Ah...Isso aí? Um dia eu vi o Saci sair pulando por aí com igual a esse. Deve ser o que você está procurando...

- Puxa...então está perdido. Que pena...

-A menininha colocou as mãos na cintura e olhando-o com ar desafiador, lhe disse:

- -Chiii...Você vai desistir, é? De onde eu venho a gente sempre acha saída para as coisas. Às vezes a gente encontra a saída bem rápido, ela já vem pronta, mas às vezes tem de pensar, pensar, rabiscar, desenhar, demora, mas sempre a gente encontra uma saída.

- O garoto ouviu, ouviu e se sentiu envergonhado. Uma garotinha daquela lhe dando lições... Então perguntou:

-Você se acha muito sabida, então me diz aí -como é que eu vou conseguir tirar a chuteira do Saci se eu nem vejo ele, não sei onde ele vive nem nada...Diz!

-Olha, disse a menina, não vai ser fácil, mas se você quiser tentar, eu te ensino: você vai ter de ir à floresta que fica lá perto da ponte, na sexta-feira à meia-noite, e quando vir uma brasinha acesa é porque o Sr. Saci ali se encontra, fumando o seu cachimbo.

-Muito bem, e aí o que é que eu faço? Digo a ele: Sr. Saci, por favor, me devolva a chuteira que o Sr. levou? É assim é?

- Claro que não, seu debochado, se você continuar menosprezando meus conselhos, não lhe ensino mais nada.

-Não, não, me ensine como posso tirar a chuteira dele, se é que você sabe...

-Claro que sei. Afinal, nós dois somos do mesmo mundo o Saci e eu...

-Então fala...

-Quando você vir a brasinha acesa, você vai na ponta do pé, sem fazer barulho, e quando chegar bem perto, dá um pisão bem forte no chão, bem na direção da brasa. Desse jeito, você acerta o pé dele. Com o susto ele vai dar o maior pulo, aí você aproveita e prende a chuteira com seu pé, apanha ela do chão e volta correndo pra casa. Não é fácil?

- Olha, que não é fácil, não é. Mas vou tentar. Melhor, vou conseguir. Você vai ver...

E enquanto ele dizia isso, a menina desapareceu. Moisés voltou triste para casa e contou à mãe que Vaidosa havia quebrado todos os ovos do ninho. A mãe ficou triste e ainda estranhou:

-Que engraçado, ela nunca fez isso antes...Bom, não faz mal. Eu faço outra coisa e a gente festeja do mesmo jeito.

No final da tarde, a mãe arrumou a mesa com quatro pratos de arroz doce com a palavra “Parabéns” escrita com canela.

Alguns dias se passaram e quando chegou a primeira sexta-feira do mês, Moisés esperou a mãe dormir, depois levantou descalço para não fazer barulho e foi, devagarinho, pé ante pé, abriu a porta e saiu. Chegou à mata quando faltavam exatamente dez minutos para a meia-noite. Entrou com muito medo e foi andando. Era difícil andar entre os galhos das árvores que roçavam seu rosto, com as folhas que quase entravam em seus olhos, mas ele continuou. Passou perto de uma árvore e viu dois olhos acesos em cima dele. Deu um grito, e muito assustado, viu uma coruja voar para outro galho.

-Puxa, com esse grito assustei todos os bichos. É capaz de nem o Saci aparecer, pensou ele.

Continuou andando, sem fazer nenhum ruído. Já devia ser meia-noite quando viu a brasinha do cachimbo do Saci. Moisés tremia da cabeça aos pés, mas a vontade de ter a chuteira era maior.

Foi chegando perto, bem perto, aí deu aquele pisão...Procurou a chuteira sob os pés, mas não a encontrou. Viu a brasinha sumir dentro da noite e, com ela, sua chance de tomar a chuteira do Saci.

Voltou triste, cabisbaixo. Entrou em casa e, para sorte sua, a mãe não notara sua ausência.

-Meu medo estragou tudo- pensou ele- mas da próxima vez vou chegar bem perto e só então vou tirar a chuteira dele. O Saci não me escapa de novo. Hoje marquei bobeira, me precipitei antes da hora.

Na segunda sexta-feira, Moisés voltou à mata. Entrou com cuidado, encontrou a mesma coruja no mesmo galho, mas controlou o medo e não gritou. À meia-noite em ponto, o Saci tornou a aparecer. Na verdade, a única coisa visível era a brasa do cachimbo, mas pela altura e pelo movimento, Moisés sabia que era ele. Foi chegando perto, chegando... Cada vez mais perto e, quando deu um pisão no que ele achou que era o pé do Saci, ouviu o coaxar de um sapo e viu a brasinha sumir longe, no meio das árvores.

- - Outra vez estraguei tudo. Nunca mais vou ter outra oportunidade.

- Naquela noite, Moisés voltou mais arrasado ainda para casa. No dia seguinte, muito triste, distraído, não conseguia fazer nada direito. A mãe deu-lhe uma bronca atrás da outra e ele foi ficando cada vez mais triste. Será que não conseguia fazer nada direito? Moisés nunca se sentiu tão infeliz...

- O que você tem menino? Está no mundo da lua? Trate de fazer tudo direito, senão você não vai brincar à tarde com seus amigos.

Que amigos? E Moisés queria lá saber de amigos? Seu único pensamento era a chuteira que o Saci havia levado. Será que valeria a pena voltar na sexta-feira seguinte?

A semana foi difícil. Moisés não conseguia se concentrar nem na escola, nem em casa. Levou bronca da professora, da mãe e, por mais que se esforçasse, seu pensamento era um só: voltar à floresta e tirar a chuteira do Saci.

Na terceira sexta-feira, ele decidiu que daquela noite não passaria. Conseguiria a chuteira, custasse o que custasse. Pra que um Saci precisa de uma chuteira? Pensava enquanto arrumava a cama com travesseiros e cobria-os com o lençol, para que se dona Zafira fosse ao seu quarto e pensasse que era ele deitado.

A noite estava muito escura. Um vento frio soprava, mas nada o amedrontou. Entrou na mata de mansinho, passou pela coruja, sentiu as asas de alguns morcegos roçarem suas orelhas, mas nem isso o intimidou. Era hoje ou nunca. À meia-noite em ponto, avistou a brasa do cachimbo do Saci. Chegou perto, bem perto.

Sentiu o calor da brasa quase encostando em seu nariz. Prendeu a respiração. Dessa vez ficaria calmo o suficiente para não errar o alvo. Deu um pisão tão forte, mas tão forte que sentiu o pé doer... Nesse instante, o grito do Saci ressoou pela mata inteira e ele viu quando a brasa do cachimbo se afastou como se voasse.

Abaixou-se, apanhou a chuteira quase sem acreditar, tamanha era sua felicidade, e voltou correndo para casa, antes que o Saci voltasse e a tomasse de suas mãos.

Ao chegar em casa, encontrou a mãe do lado de fora, aflita com seu desaparecimento. Tentou explicar o que tinha acontecido, mas é claro que não se livrou de uma bela surra.

Mas no dia seguinte, exibindo as chuteiras novas para os amigos, Moisés não parava de contar vantagens:

-Chii, gente, o Saci ficou morrendo de medo. Quando me viu tirou logo a chuteira e fugiu voando...

Os amigos então lhe provocavam:
-Que mentira, Moisés! E Saci existe? Foi por isso que tua mãe te bateu. Pra deixar de contar mentira. E a surra que você levou?

E ele:

-Ah...Por uma chuteira dessas eu levava mais dez surras e não me arrependia...

-

risofasanaro@gmail.com

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