segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Casa dos meus padrinhos – Risomar Fasanaro



Era uma casa pequena que ficava no alto, em frente à linha do trem. Nos fundos da casa havia uma mangueira grande que quase sempre estava carregada de mangas, e ao lado, um abacateiro e muitos pés de bom-dia e boa- noite, flores que recebem esses nomes porque abrem pela manhã e ao anoitecer.
Na pequena cozinha destacava-se o fogão à lenha e um console com duas grandes jarras de barro onde minha madrinha armazenava água.
Na sala de jantar, uma luz suave, filtrada pelas folhas do abacateiro que havia ao lado da janela, entrava iluminando a mesa e deitando sombras sobre a toalha. O bule e o açucareiro de ágata azul, o cestinho com pães, e mais aquelas iguarias que fazem de um café no nordeste uma festa: macaxeira, fruta-pão, às vezes um bolo de mandioca, umas tapiocas...
Meu padrinho, sentado à cabeceira da mesa, comia devagar como se não tivesse de sair para o seu armazém em Afogados. E enquanto comia, contava histórias de sua infância em Santa Combadão, sua cidade em Portugal. Cidade que soube há pouco, era a terra do ditador Salazar.
Além de ele falar pouco, quando falava eu não entendia muito bem o que dizia naquele português de Portugal, mas sentia o quanto gostava de mim.
Não me lembro se quinzenal ou mensalmente ele ia ao Gabinete Português de leitura, na rua do Imperador, e de lá trazia emprestados quatro livros: um para ele, um para minha madrinha, um para meu irmão Paulo e um para mim.
Durante as refeições, ele falava do livro que estava lendo, citava passagens, e nos perguntava, a mim e ao meu irmão, sobre o que estávamos achando dos nossos. Ele trazia Dostoievski, Tolstoi pro meu irmão, Cronin pra minha madrinha, e José de Alencar e Guerra Junqueiro pra mim. Um dia trouxe Dom Casmurro, eu li e odiei Machado de Assis. Só muito mais tarde passei a amar Machado.
Aos domingos ele abria o armazém até meio-dia, e depois vinha pra casa trazendo uma lata de goiabada e algumas garrafas de guaraná “Fratelli vita” para o almoço.
Depois ele e minha madrinha nos levavam para algum passeio: Parque Dois Irmãos, andar pelas ruas do centro do Recife...
À noite ouvíamos um programa de músicas portuguesas, e o fado me vinha até que o sono tomasse conta de mim.
Minha madrinha era muito carinhosa comigo, mas muito severa com meu irmão. Ela o incumbia de várias tarefas: varrer o quintal, tirar água da bomba e encher as jarra de barro...
Quando ela saía, meu irmão e eu ficávamos em casa, e nossa alegria era sentar na janela, com os pés pra fora, vendo os trens passarem. Mas saíamos imediatamente, mal ela apontava do outro lado da linha do trem.
Eu gostava de ficar oito, dez dias naquela casa, não mais que isso. Sentia saudade de Socorro, onde morávamos, saudade dos meus irmãos, dos meus amigos, das brincadeiras... Socorro era um paraíso repleto de árvores, nossa casa ficava à beira do rio Jaboatão e era uma festa me equilibrar nas pedras escorregadias do rio, pescar piabas para pôr num vidro de maionese, onde viviam apenas dois, três dias...subir nas árvores...
Quando eu fiz dez anos, meu padrinho ficou doente. Os médicos diagnosticaram um câncer na garganta e dali em diante ficou mais difícil entender o que ele dizia.
Minha madrinha pediu à minha mãe que me deixasse ficar com ela até a morte dele, e a partir daquele dia, eu o olhava e sentia uma tristeza muito grande por saber que a morte rondava aquela casa, e que só sairia dali quando o levasse.
Muito triste, atravessei a ponte de Socorro me despedindo em silêncio do rio, das árvores, de tudo aquilo que eu amava. E como eu passaria a morar com eles, meus pais me transferiram do Grupo escolar de Socorro, para o colégio Carneiro Leão, no centro do Recife.
Durante um ano vivi um sentimento ambivalente: a tristeza de ver meu padrinho em casa, sofrendo horrivelmente, definhando dia a dia, e a alegria de viajar sozinha de trem, descer na Estação Central e percorrer as ruas da cidade até chegar ao colégio.
Minha madrinha me dava dois cruzeiros por dia, e como as passagens de trem custavam CR$ 1, 20, eu juntava o troco de três dias, e a caminho da estação, de volta para casa, comprava um pão-de-ló e ia comendo-o pela rua.
Tudo no Recife me encantava: a estação Central, o teatro Santa Isabel, as vendedoras de tapioca, de cachorro quente, as bancas de frutas na ponte Duarte Coelho, o perfume de cajá, de pitombas e mangabas se espalhando no ar...Ainda hoje quando penso em felicidade tento rememorar aquele sentimento que me tomava naquelas andanças por minha cidade... mas, como toda felicidade, durava pouco, chegando em casa voltava a tristeza por ver meu padrinho morrendo aos poucos, e a angústia de saber que me era destinado viver aquela dor até o momento final.
E um dia ele chegou: meu padrinho morreu. E aquela casa que antes já me parecia triste,
tornou-se mais e mais vazia sem sua presença falando de livros, falando de sua aldeia.
Alguns dias depois do enterro, meu pai veio me buscar e me trouxe outra triste notícia: ele tinha sido promovido e transferido para o 4º RI, quartel de Quitaúna, São Paulo...
Depois de alguns dias atravessei a ponte de Socorro pela última vez. Ali, olhando a cachoeira, dei adeus à minha infância, e deixei, à beira do rio Jaboatão, os melhores anos de minha vida.

Um comentário:

  1. Nossa, que bonito o texto, é como se as palavras dançassem no rítmo da autora. E a gente dançasse junto.Viva o som de frevo das letras de Risomar.

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