sexta-feira, 16 de outubro de 2015

13 de outubro de 2015: uma reunião da Comissão da Verdade de Osasco



“Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo o adeus...”
Vinicius de Moraes, trecho do poema “Pátria minha”.

No dia 13 de outubro de 2015 aconteceu uma das últimas reuniões da Comissão Municipal da Verdade de Osasco. Um ano de trabalho em que foram realizadas oitivas das vítimas da ditadura militar de 1964-1985, localizados os locais de detenção e tortura, identificados alguns dos agentes de Estado que participaram de violação dos direitos humanos, realizada a pesquisa das empresas que colaboram com a repressão policial, registrado o atentado à legalidade republicana com a prisão de vereadores e cassação do prefeito.

Desde que a Comissão foi criada em agosto de 2014, por um decreto do Executivo e aprovada pelo Legislativo, foram dezenas de reuniões com os representantes das sete subcomissões: Agentes do Estado, Equilíbrio Federativo, Entidades Civis, Vitimas e Locais. Albertino de Souza Oliva foi o primeiro coordenador, substituído pelo vice-coordenador Luciano Jurcovichi Costa, e nos últimos seis meses, por Murilo Leal Pereira Neto.

Foi uma longa pauta – encaminhamento de ofícios, visitas aos locais de prisão e tortura, oitivas dos que foram atingidos pela perseguição policial, pesquisa nos anais da Câmara e nas empresas da cidade. Foi programada a projeção de filmes-documentários e a participação e panfletagem no Desfile do 7 de Setembro.

O Ato de Desagravo ao Legislativo e de 50 anos de Reempossamento do Prefeito Hirant Sanazar no dia cinco de outubro foi um acontecimento raro na cidade: reuniu ex-prefeitos e vereadores, autoridades civis e religiosas, e vítimas do terror do Estado policial. Os discursos do atual mandatário, Antonio Jorge Pereira Lapas, e do professor Murilo foram históricos por apontar os desmandos do passado e os caminhos para o presente.

O relatório final está sendo elaborado, retomando o texto preliminar apresentado em dezembro de 2014. Será um documento para lembrar os anos em que Osasco teve vereadores presos, prefeito cassado, operários sitiados, presos e torturados na greve de 1968, estudantes e militantes de organização de esquerda perseguidos, torturados, mortos e exilados.

Foram ouvidos os personagens que resistiram à ditadura e foram vitimas da repressão policial: Gabriel Roberto Figueiredo, Antonio Roberto Espinosa, Stanislaw Szermeta, Maria Aparecida Bacega, Helena Pignatari Werner, os irmãos Iracema e Roque Aparecido da Silva - para citar alguns deles. Muitos outros não puderam comparecer porque foram mortos: Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Carlos Lamarca, José Campos Barreto – e o estudante Sergio Zanardi, que se suicidou nos anos 60. Não conseguimos ouvir em audiência os torturadores identificados; a pergunta que ficará para o futuro: até quando permanecerão calados?

Na reunião de 13 de outubro de 2015 foram discutidas as recomendações finais da comissão ao Legislativo e Executivo da cidade. Entre elas, a criação de um Centro de Memória, Verdade e Justiça dos movimentos sociais e das vítimas da ditadura militar; sugerir ao município de Itapevi a desapropriação e tombamento do centro clandestino de tortura, chamada “Boate Querosene” - e a criação de um memorial de direitos humanos no local.

A comissão deixará um documento que será referência para os osasquenses - embora os que destruíram o poder republicano, prenderam, humilharam, torturaram, assassinaram e “desapareceram” continuam impunes. Mas entrarão para os anais da História como os que sufocaram os sonhos de uma geração que lutou por um país mais justo e solidário.

Recordei a vocês nos últimos doze meses nas minhas crônicas de memórias: houve um tempo de guerra e resistência, depois um longo tempo de silêncio e medo. Hoje, é um tempo de recordar, redescobrir o passado, documentar - para que acreditemos nas esperanças de um futuro com democracia e liberdade.

NOTA: trecho do poema “Pátria Minha”, de Vinicius de Moraes, in “Antologia Poética”, Companhia das Letras, São Paulo, 1992, pp. 198-200

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