quinta-feira, 10 de setembro de 2015

REFLEXÕES sobre “O professor”, de Cristovão Tezza, - João dos Reis



Para o professor Erasmo d’Almeida Magalhães

“... repetir o mesmo gesto de milhares de vezes, atravessar a porta dupla com meu passo solene, sorrir discretamente para os 60 alunos de sempre, colocar livros, pastas com textos corrigidos e caderneta de chamada sobre a mesa, e (...) então eu diria ‘bom dia’”. A rotina do personagem do livro do escritor Cristovão Tezza é abalada com a chegada de uma nova aluna.

O livro é uma reflexão de Heliseu da Motta e Silva, sobre as lembranças do passado. “A memória obedece à lógica fotográfica”, diz o personagem, e é “preciso organizar a memória ou jamais descobrirei o sentido da minha vida”. Assistimos o desenrolar de um dia na vida do professor de Filologia Românica; ele receberá uma homenagem na universidade onde lecionou por décadas.

Quem é Therèze, a discípula que apresenta um mundo de sentimentos ainda não vividos pelo pacato mestre? Qual o papel desempenhado por Monica, a esposa que faz parte desse mundo ordenado, mas sem a esperança de um futuro luminoso? E como a morte dela em uma situação trágica leva-nos a suspeitar de um crime, embora carregado de contradições? Por que a presença e ausência do único filho é um sentimento doloroso?

Descobri o escritor catarinense nos anos que vivi em Curitiba. Li todos os seus livros – buscando nas bibliotecas da cidade. O que mais me impressionou foi “Trapo”, de 1998. O professor de Linguistica da Universidade Federal do Paraná era, então, um ilustre desconhecido na cena cultural brasileira, apesar de já ter publicado outros livros por editoras do Sul e ser um cronista frequente do jornal “Gazeta do Povo”.

Heliseu, o personagem, está com 70 anos. É a descoberta da velhice, essa”tranquila proximidade da morte”: “eu não era mais contemporâneo dos meus alunos”, diz ele. Como não reconhecer o conflito de sentimentos do professor que não se engajou nas lutas do seu tempo? É o histórico de uma vida sem as emoções da juventude. Para quem está revendo as imagens e as pessoas da sua biografia, qual é o balanço final?

“Nunca tive o dom, ou o poder, da solidão, aquela coisa espessa e impenetrável que fez a vida do meu pai: ‘eu não preciso de ninguém’, ele sempre me dizia, o que era a um tempo um conselho, uma maldição e uma ameaça”. No apartamento, enquanto se prepara para a sessão em que será homenageado, o personagem reflete – o livro intercala o tempo passado e o presente.

Como o personagem enfrenta o dilema de encontrar um sentido para o seu destino? “... aquele silêncio tranquilo de gestos previsíveis, o cronograma das horas e das atividades (...) a aceitação pacificada da rotina e da convivência mecânica, as engrenagens miúdas e grandes que vão nos moendo (...), pois chega um instante em que cai um grão de areia nas rodas mentais, um encontro desacertado de dentes girando em falso, e nos vemos perdidos, de volta ao acaso da realidade, e sentimos que a máquina vai destrambelhar, todas soltas, molas estouradas”.

Os livros de Cristovão Tezza foi uma revelação para mim no final dos anos 90. O escritor nasceu em Lages, Santa Catarina, mas quando tinha sete anos mudou-se para Curitiba, onde vive até hoje. Tornou-se conhecido depois de ganhar todos os prêmios literários com “O filho eterno”- e ser traduzido em mais de uma dezena de países. Ao lado de Dalton Trevisan, é a presença literária que mais marcou minha temporada no Sul. Em uma cidade em que as pessoas se encontram - nos bares, cinema, teatro, livrarias – eu perambulava pelas ruas, esperando encontrá-los um dia - e refletia como seus personagens: vivemos o desencontro, e não há saídas, estamos condenados à solidão.

NOTA: Sou grato a Erasmo d’A.Magalhães e Edna M.Fernandes dos Santos por me presentear com o livro “O professor”, de Cristovão Tezza.
"O Professor"-Editora Record, Rio de Janeiro, 2014, 240 pp.

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