sexta-feira, 25 de setembro de 2015

REFLEXÕES sobre “Herdando uma biblioteca”, de Miguel Sanches Neto - João dos Reis



Para Linda Kawakita

“Não venho de uma biblioteca paterna, e sim de sua ausência. Tive que buscar a figura do pai em amigos e autores e fiz das afinidades culturais o caminho para esta família, dispersa no tempo e no espaço, que a literatura me deu”(p.34)

Um livro que marcou a temporada no Sul do Brasil foi “Herdando uma biblioteca”, de Miguel Sanches Neto (Editora Record, Rio de Janeiro, 2004, 144 pp.). Reli-o recentemente, e me trouxe recordações como na primeira leitura.

A pequena cidade do interior paranaense de Peabiru estava em “uma região onde importava menos participar da cultura universal do que desbravar uma terra que não dava descanso aos homens” (p. 9) De uma família de lavradores, não havia livros em sua casa - a Biblia ele ganhou do dono de uma sorveteria, e foi a única leitura dele até os 13 anos. Nos manuais escolares as anotações eram a lápis, porque seriam apagadas - para no ano seguinte ser usados pelos irmãos ou outros alunos. Quando foi para o Colégio Agrícola em Campo Mourão, os instrumentos de estudo eram tratores, arados, semeadeiras, grades niveladoras – e foi nessa cidade que entrou pela primeira vez em uma livraria.

Foi um aprendizado a frequência ao mundo da literatura:“Como não tive uma biblioteca familiar, não herdei conceitos nem preconceitos, sendo obrigado a buscar por conta própria os livros que tinham algo para me dizer” (p. 123).

Por que as crônicas do autor me tocaram mesmo em uma releitura? Lembrei da minha descoberta em Gália, no centro-oeste paulista: o prefeito João Ferreira criou uma biblioteca pública no prédio da prefeitura: fiquei encantado com a quantidade de livros; tinha livre escolha, mas apenas da secção infantil. E, depois de alfabetizado, o primeiro (e único) livro que ganhei da minha tia Anna Rosa: “O patinho feio”, de Hans Christian Andersen. Por falta de opção, comprava semanalmente na banca de jornais a revista do Pato Donald - cheguei a ter uma coleção.

Com 12 anos, já morando em Osasco, no Ginásio de Presidente Altino (Gepa), o professor de História, Josué Augusto da Silva Leite emprestava livros nos intervalos das aulas: li José de Alencar, Machado de Assis e Monteiro Lobato, indicados por ele. Ao querido mestre sou muito grato por me apresentar aos grandes escritores, desconhecidos pelo menino caipira do interior – e pelo presente no final do ano, um dicionário de francês.

Minha dívida com o professor de Latim e Português do Gepa e do Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares (Ceneart), Fernando Buonaduce, é impagável: ele me deu livre acesso à biblioteca da sua casa; e foi lá que encontrei os livros de literatura da Coleção Saraiva e do Clube do Livro – que me apresentaram os escritores contemporâneos.

Mais tarde Miguel Sanches Neto formou seu acervo particular, publicou seus próprios livros, passou a frequentar livrarias e sebos, bibliotecas públicas. Ele revela: “entramos nelas com um sentimento de orgulho por fazer parte daquele vasto universo, constituído ao longo dos séculos para satisfazer nossas necessidades de distração e conhecimento” (p.57).

Eu também tive meus pais e avós imigrantes ligados ao trabalho na terra – e não eram leitores; havia em minha casa apenas dois volumes de medicina natural; a bíblia do meu avô materno era uma edição resumida do século XIX, que ele me presenteou pouco antes de morrer.

Trabalhei quatro anos na Biblioteca "Monteiro Lobato" em Osasco, quando era estudante universitário, mas havia poucos livros e espaço – e nunca tive tempo para frequentar a biblioteca da USP ou a Mario de Andrade em São Paulo. Morando na capital paranaense, frequentei livrarias, sebos, e às vezes, a biblioteca do meu bairro, o Farol do Saber, ou da rua da Cidadania (subprefeitura).

Foi com dificuldade, aos poucos, que iniciei minha coleção. Em Curitiba, foi um processo inverso: a doação de dezenas deles para a biblioteca do Museu Metropolitano no bairro Portão ou de alguns para o amigo Ewerton; já morando em Cotia, como a biblioteca da cidade não aceitava doações, contribuí para formar uma pequena biblioteca na subsede do sindicatos dos professores (Apeoesp), e vendi outros para o sebo “Livraria Universo Literário” de Osasco.

O piá do interior do Paraná que buscava nos livros um novo mundo adaptou um anexo na sua casa para abrigá-los, tornou-se mais tarde professor de Literatura da Universidade Estadual de Ponta Grossa, escritor e crítico literário. Eu continuo um leitor que não pretende mais guardá-los – ainda tenho algumas centenas deles em casa, mas cada vez mais procuro fazer com que circulem pelas cidades em que deixei amigos, estive de passagem e que aprendi a amar.

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