segunda-feira, 14 de setembro de 2015

RECORDAÇÕES de Curitiba e do Litoral Norte paulista - João dos Reis



“Amigo para mim é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é”. João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”.

Para Stezel e Sandra Ceschini Sussmann

Estava com Ewerton no bar e ele pediu “carne de onça”. “Pierog” era o prato aos domingos – na minha casa e também na de Felis, de Araucária, na região metropolitana; para acompanhar o vinho Campo Largo na Lanchonete Badech, pedia uma “vina”. No Supermercado Videira no bairro Pinheirinho pedia duas “cuecas viradas”, uma dúzia de “banana caturra” e de “mimosa”; e no açougue, 200 gramas de “posta branca e vermelha”. Nas ruas, respeitava o sinaleiro; os problemas com o carro resolvia fazendo geometria ou procurava o estofador e o latoeiro. Essas são algumas das palavras usadas em Curitiba – e que eu tive que me adaptar durante a minha temporada entre 1999-2005.

Foi difícil viver a realidade do Litoral Norte paulista – Caraguatatuba, São Sebastião, Ubatuba e Ilha Bela – nos anos 70. Não houve um outro universo vocabular, mas um choque cultural: as comunidades tradicionais passavam por um processo acelerado de mudança. A construção da Rodovia Rio Santos ameaçava a cultura caiçara, preservada durante séculos. As danças, folguedos, as festas, a linguagem podiam desaparecer com a invasão dos novos habitantes: migrantes e os novos proprietários das terras.

Como pensar essas duas realidades culturais depois de muitos anos? Durante minha residência em outras cidades, deixei amigos-camaradas. Tenho contato com alguns deles até hoje, mas muitos se perderam pelo caminho – permanecem as imagens, as lembranças. Como me redimir pelo abandono de alguns deles, que foram sempre companheiros fiéis e solidários? Recordo que fui convidado e passei o fim de semana na casa de uma aluna na praia do Lázaro em Ubatuba – a família era de pescadores; nunca mais tive informação deles.

As minhas últimas crônicas são uma retomada dessas recordações – e daqueles que foram importantes na longa aventura pelo litoral paulista ou pelo Sul do Brasil. Me pergunto: o que ficou desse período de confraternização e camaradagem? Há alguma possibilidade de que os laços de amizade permaneçam?

No tempo presente, em que a comunicação acontece a todo o momento, é difícil entender como é possível não saber noticias, que aqueles que nos são caros, “desaparecem” na vastidão do nosso planeta. De Curitiba, sei noticias dos amigos – por e-mail, pelo celular. Do Litoral Norte paulista retomei a amizade, depois de décadas, com o professor-poeta – e “conversamos” pela internet ou por telefone.

Depois de oito anos, retornei a Curitiba: reencontrei Arthur, o piá com quem convivi mais tempo - ele é hoje um jovem de 17 anos, estudante de Filosofia e piano; Ewerton, o pai dele, é hoje um “restauranteur” e sommellier. Felis, o amigo de Araucária, continua no trabalho na agricultura no sitio da família. A amiga Mazé, artista plástica, está presente na vida cultural curitibana. O professor-poeta Pedro Paulo se aposentou – e ainda é atuante na vida política da cidade de Ubatuba.

E vocês devem estar me interrogando: e eu, qual o meu destino depois de tantos caminhos? Não sei - respondo à pergunta: para os viajantes, não há um porto de chegada, estamos sempre “em trânsito”, como transitória é a vida.

Para vocês, que devem estar curiosos sobre o significado do “curitibês” do inicio da crônica: “carne de onça” é um prato à base de carne moída crua; “pierog” é um pastel de origem polonesa; “vina” é salsicha; “cueca virada” é um biscoito; “banana caturra” é banana nanica; “mimosa” é mexerica; “posta vermelha” é colchão duro – “posta branca” é lagarto; “sinaleiro” é semáforo; “fazer geometria” é o alinhamento das rodas do carro; “estofador” é tapeceiro; “latoeiro” é funileiro.

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