sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Osasco: um novo jornal, o “Primeira Hora" _ João dos Reis


“Brasil: a policia que prende, tortura e mata” dizia a manchete do “Primeira Hora” do inicio dos anos 90. Na semana seguinte, estudantes protestavam em frente à Câmara Municipal – e Marcelino Jesus de Lima, jornalista do semanário, foi espancado com um cacetete por um policial quando fazia uma reportagem sobre a manifestação.

Essa é uma das lembranças da minha colaboração para o jornal, que foi fundado por Antonio Roberto Espinosa em 1985 e que circulou até 2000. Nos primeiros anos, escrevi resenhas de livros. Depois, retomei a militância pelo novo canal de comunicação: escrevi textos a partir dos relatórios da Anistia Internacional, como o da manchete acima, que foi elaborada pelo editor. Foi um desafio premeditado à truculência policial nesse inicio da redemocratização no país.

Osasco foi um bairro de São Paulo, e quando tornou-se independente em 1962, teve sempre a imagem marcada pela criminalidade. Foi uma propaganda deliberada de vincular a cidade à violência, uma represália à revolta de estudantes e trabalhadores em 1968. Finalmente, tínhamos um jornal que discutia política, economia, literatura, entre outros assuntos comuns à pauta jornalística.

A recordação ficou gravada na memória: a primeira redação na Avenida Carlos de Morais Barros, na Vila Campesina: Jesse Navarro e os jovens Fábio Sanches, Luis Brandino e Marcelino. Foi com eles que tive um convivio mais próximo. Colaboradores contribuíram com o seu trabalho voluntário para essa empreitada: as irmãs Mércia e Risomar Fasanaro, Horácio Coutinho, Geraldo Carlos Nascimento, Albertino Souza Oliva, e muitos outros.

Com a equipe de intelectuais da comunicação mantive laços de amizade – e ainda hoje tenho noticias deles, informações onde trabalham. Não sei se eles escreveram sobre essa experiência - a construção de uma nova visão da cidade da periferia da metrópole.

Minha visão e reconstrução das imagens é sempre marcada pela subjetividade. Muitos outros recortes da realidade da cidade poderiam surgir – e cabe aos personagens participantes dessa experiência contá-la para os osasquenses do novo século.

Tinha voltado ao magistério em 1984, e distribuía alguns exemplares do jornal para os representantes de classe das escolas “”Vicente Peixoto” e “José Maria Rodrigues Leite” em que lecionava Filosofia. Dizia aos alunos: “o jornal é o pão do filósofo”, o ponto de partida para a reflexão sobre o cotidiano, a realidade da cidade, do país.

A História tem um registro desses anos esquecida. Hoje, quem pretende conhecer o passado de Osasco desse período, não tem onde consultar; uma coleção com um exemplar de cada edição do jornal permanece à espera de um projeto de digitalização – e assim, torná-la acessível aos pesquisadores.

Depois de tantos anos, me pergunto: que lembranças permanecem nos meus alunos e nos leitores das inúmeras páginas que escrevemos? No arquivo pessoal da memória ficou uma entrevista realizada por Risomar com o luthier, um construtor de violino. Um personagem até então anônimo, desconhecido – e que foi descoberto pela artista plástica Cristina Leite.

Fui professor por mais de duas décadas, e pensava que o discurso verbal se perdia na sala de aula. A marca desse tempo de colaboração com o jornal foi imprimir as ideias, as reflexões, as informações – uma responsabilidade de quem escreve. Porque me perguntava ao entregar os artigos para o editor: quem é o leitor? As palavras têm a força de mudar o mundo, as pessoas? Não tinha ilusão, mas sabia, com certeza, que não era um combate perdido, depois de anos de censura durante a ditadura militar.

E encerro com a mensagem que Antonio Roberto Espinosa escreveu para os que estiveram no reencontro que se realizou domingo, dia 13:

"Para os companheiros-camaradas de Osasco, a cidade proletária, dizia: o “Primeira Hora” é o instrumento que dispomos para confrontar a imprensa burguesa dominante. E, apesar do pessimismo de muitos, foi com a arma das palavras que nos preparamos para as novas batalhas do futuro.Fraternidade e Verdade pra sempre!

O espírito irrequieto, a curiosidade e o bom humor nunca nos faltaram, assim como a disposição para a reportagem e a vontade do texto bem construído, da fotografia única, da ilustração aguda e da página bem equilibrada. Escrever até que não é difícil. O difícil é ser lido e respeitado. PH foi caso único de bom gosto e irreverência, trabalho até de madrugada e alegria a cada exemplar impresso. Somos o produto do amor pela verdade e da paixão pela liberdade e a igualdade.

O jornal acabou, para nós, na edição 927, quando lhe desejamos que seguisse sua marcha com dedicação e sorte. Infelizmente enquanto veículo o PH não sobreviveu muito tempo. Mas a busca da verdade, que sempre o caracterizou, a fraternidade e a união do pessoal que o fazia permanecem vivos em nós. Seguem em cada um dos que o tornaram realidade, um momento sublime em nossas vidas e na história de Osasco e Região. Este almoço, quinze anos depois do fim, é uma mostra de que a luta pela liberdade é sempre uma jovem senhorita e está sempre na puberdade. E que seguimos em frente!


Osasco, 13 de setembro de 2015

Jornal PRIMEIRA HORA"

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