terça-feira, 29 de setembro de 2015

O último adeus: meu avô Marcelino Matheus Ferro - João dos Reis



“Há palavras lança-chamas,
Conheço algumas que nos fazem viver,
por não serem simples som
mas estradas incendiadas por dentro,
duplos corações batendo com o calor
da certeza do dia que se segue.
(...) Quebrando o meu silêncio,
povoo alguns espaços de alegria.
(...) Nas palavras me encontro.
Cansado, quase morto, à espera,
sempre à espera. Nas palavras vivo,
denuncio ou ataco. Há um grande sol
à nossa espera. Quantos somos?”
Trecho do poema “Algumas palavras” de Eduardo Guerra Carneiro.

Para Anna Rosa Ferro Palacio

Estou sozinho na estação de Duartina à espera do trem para São Paulo. Meu avô Marcelino Matheus Ferro não me acompanha: teve um acidente vascular cerebral e está acamado. Despedi-me dele em silêncio – e foi a última vez que o vi. Foi a imagem mais triste que ficou das minhas férias na minha cidade natal do interior de São Paulo.

Todos os anos ia visitá-lo – era um período de descanso da rotina de trabalho e estudo - e uma volta ao passado familiar. Minha avó Elisa de Jesus Ferro sempre me esperava com meus pratos preferidos: bacalhau à moda de Trás-os-Montes ou lombo assado – e a sobremesa de manjar de côco com ameixas.

Como eram as nossas conversas? Antes de vir para o Brasil, eram agricultores – plantação de vinha, oliveira, figueira -, e do pastoreio de carneiros. Meu avô era de um mutismo absoluto; com ele, nascido nas montanhas do Norte de Portugal, aprendi o segredo das palavras: elas têm uma magia que cabe a nós descobrir a cada vez que precisamos usá-las
.
Procurava saber como foi a travessia do Atlântico em 1926 na viagem de aventura para a América. Que sonhos eles carregavam, deixando os pais e familiares? Era um piá – e mesmo quando adolescente e na juventude, perguntava a eles: o que esperavam do Novo Mundo?

Tia Aurora e a pequena Sonia - que morreram muito jovens -, e minha avó paterna Pasqualina Negrini dos Reis estavam sepultadas no cemitério da cidade. Acompanhei muitas vezes minha avó Elisa nas visitas e nas orações a elas, que partiram inesperadamente: o mistério da vida e da morte estava sempre presente.

Vocês devem ainda estar me perguntando: como era o nosso diálogo? Lia para eles as cartas que vinham de Portugal – e que falavam do trabalho com a terra, a neve de dezembro, o cotidiano na aldeia. Na foto, a tia-avó Piedade, octagenária, de cabelos brancos, olhando-nos - e eu me perguntava: ela estava feliz, solitária, sob os cuidados de dois sobrinhos solteiros que permaneceram em Trás-os-Montes? Nas imagens, eles apareciam em frente a uma casa construída com pedras: como eles enfrentavam o frio e o vento do inverno?

Tia Anna Rosa me contou há anos que não havia mais descendentes dos Ferro na província – todos partiram para a França. Uma noticia recente - de uma amiga dela que esteve viajando pela Europa - revelou que ainda há parentes que vivem na região. Estamos planejando uma viagem – mas há um oceano a nos separar das nossas raízes trasmontanas.

Era sempre meu avô Marcelino que me acompanhava à estação de trem – e eu me despedia beijando a sua mão– e o fiz desde criança. Lembro que depois o abraçava e agradecia a garrafa de vinho que ele abrira para comemorar a minha visita.

Meu avô me presenteou com a bíblia do século XIX que ele ganhou do meu bisavô. Outra recordação é uma pedra que tenho na mesa da minha casa: ele a usava como apoio aos papéis de embrulho. É ela a presença mais visível dele e da nossa convivência mergulhada em silêncio – que descobri mais tarde tinha sido muito feliz.

Estava lecionando no Litoral Norte de São Paulo, e tinha vindo visitar minha mãe em Osasco – não soube que, no domingo , dois de março de 1975, em que retornava ao Litoral Norte, ele faleceu. Não havia telefone onde morava, e só fui informado na manhã de 3ª feira por Antonia Carlota Gomes, diretora da escola onde trabalhava em Caraguatatuba. À tarde procurei a solidão da praia deserta para o meu último adeus.

NOTA: o poema “Algumas palavras”, de Eduardo Guerra Carneiro, in “Antologia da poesia portuguesa contemporânea – um panorama”, org. de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Editora Lacerda, Rio de Janeiro, 1999, pp.371/372.

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