sexta-feira, 4 de setembro de 2015

LEMBRANÇAS de "Grande Sertão: veredas", de Guimarães Rosa - João dos Reis



“Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil dos pássaros rexenxão – que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a sobre. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açúcar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte”.

Li o livro de João Guimarães Rosa quando tinha 19 anos. Era final de novembro, véspera de vestibular na USP, e eu estava com um mês de férias. Deixei de lado os livros de Filosofia e mergulhei no universo do sertão. Foi o amigo José Campos Barreto que me emprestou – e me lembro dele comentando o livro na porta da sala de aula do Colégio Antonio Raposo Tavares (Ceneart), onde estudávamos.

Conhecia o escritor pelos pequenos contos da revista de medicina “Pulso”, no Hospital São Germano em Osasco, onde trabalhava quando tinha 16 anos. No curso Clássico, a professora Laura Amélia Alves Vivona fez um comentário emocionado do livro em uma das suas magistrais aulas.

A amizade dos dois jagunços, Riobaldo e Reinaldo-Diadorim é, talvez, a história de amor mais apaixonante da literatura brasileira. Porque é um amor impossível de ser declarado. Riobaldo nos conta sua vida: nas andanças e nos entreveros com grupos rivais ou com forças policiais, Diadorim é a personagem misteriosa e querida. “Eu vinha tanto tempo me relutando, contra o querer gostar de Diadorim mais do que, a claro, de um amigo se pertence gostar”. Mas ele confessa que “mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre”.

Não há uma narrativa linear: é a descoberta do mundo do sertão e do afeto pelo companheiro. “Primeiro fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora”.

O conflito vivido pelo jagunço é marcado pela dúvida: “De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalho rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa?” Mas ele reflete: “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso da loucura”.

Quando li o livro há mais de quarenta anos, eu já sabia o final - o que não impediu da emoção final: quando Riobaldo descobre quem é Reinaldo-Diadorim, “tal que assim desencantava, num encanto terrível”. E diz ele, “solucei meu desespero”: “Eu não sabia por que nome chamar: eu exclamei me doendo: -‘meu amor!’”.

Quando na prova oral do vestibular o professor me perguntou “qual o último livro que li”, respondi:“Crime e castigo”, de Dostoiévski, que tinha lido com 16 anos - e não sei porque não citei “Grande sertão: veredas”. Da conversa com Barreto permaneceram apenas as imagens: as palavras desapareceram da memória. O exemplar que tenho hoje comprei nos anos 80 - e passaram-se mais de quarenta anos para eu reler o livro em agosto de 2015.

O que conversaria hoje com Barreto e com Dona Laura, se eles estivessem presentes? Com o amigo, diria que a guerra de movimento dos sertanejos foi um aprendizado para a guerra de guerrilha; com a professora, diria que, como na adolescência, continuo apaixonado pela beleza da linguagem poética do livro.
“Sertão sendo do sol e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, por sobre... Travessia perigosa, mas é a da vida.”

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