quarta-feira, 23 de setembro de 2015

LEMBRANÇAS, ainda lembranças... João dos Reis


Para Sergio Emanuel Dias Campos, do Rio de Janeiro

Ciça Marinho (Maria Anunciação Nunes Marinho) canta o fado “Igreja de Santo Estevão” na Quinta do Bacalhau, na Estrada de Caucaia, em Cotia, no sábado, 12 de setembro de 2015. Acompanhada do também fadista Tiago Felipe, da guitarra portuguesa de Wallace Oliveira e do violão de Sergio Borges, a noite trouxe de volta as lembranças da minha infância.

Com 7 anos ouvia junto com meu pai Antonio, na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, um programa apenas de fados no rádio a pilha. Depois, já morando na cidade de Gália, SP, continuei um ouvinte assíduo da música da minha mãe e dos meus avós portugueses. Qual a influência desses relatos de saudades, de tristezas, de “nostalgias, de não sei o quê – de tudo o que a vida tem, de tudo mesmo”, como me escreveu Sergio Emanuel, comentando minhas últimas crônicas, e deixando-me honrado com a frase : “artista que és, sabes do que se trata”.

Tinha 16 anos no curso Clássico no Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares (Ceneart) e descobri a bossa nova pela professora de Literatura e Língua Portuguesa, Darly Nicolanna Scornaenchi: ela trouxe uma vitrola portátil para a sala de aula para ouvirmos Vinicius de Moraes e Carlos Lira. Foi uma novidade: eu, que na infância vivi a tristeza do fado, descobri a alegria nos versos do poeta.

O que dizia Vinicius de Moraes em “Minha namorada”, que me encantou? “Você tem que vir comigo em meu caminho / E talvez o meu caminho seja triste para você / Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos / Os seus braços o meu ninho / No silêncio de depois/ E você tem que ser a estrela derradeira / Minha amiga e companheira / No infinito de nós dois”.

Na minha visita recente a Pedro Paulo, em Ubatuba, ouvimos o último CD de Chico Buarque – e procurei fugir dos temas da política contemporânea porque não vejo sinais de esperança de um novo tempo. Conversamos sobre a presença do compositor-escritor e as nossas vivências literárias. O que o artista nos revela, mas nós não conseguimos expressar com as palavras? Perguntei ao amigo-poeta: quem ainda hoje admiramos? E quais são as nossas leituras?

O papel da música na minha infância e adolescência despertou a reflexão: por que ela nos conduz, desafiando o ramerrão cotidiano, ao mundo da beleza? Por que os sentimentos como a tristeza e a alegria, a dor e a compaixão, recriados pela imaginação artística, são capazes de nos deixar mais próximos da humanidade?

As interrogações são possíveis porque somos capazes de sentir a vida como uma permanente viagem – e a música e a literatura podem ser nossas companheiras nessa aventura desesperada.

Quando escrevo, sinto a inadequação de que fala Cristovão Tezza, que foi a mais prazerosa descoberta na minha temporada no Sul do Brasil. Por que escrevo? Para quem escrevo? Ele diz que “pessoas felizes não escrevem”, e que o escritor “tentará recuperar, pelo trabalho beneditino da escrita, a sua alma usurpada”.

O restaurante no sábado de 12 de setembro estava lotado, mas eu estava sozinho: meus caros amigos Edna Maria e Erasmo não puderam me fazer companhia. Com a jovem garçonete Ana, minha vizinha no bairro Tijuco Preto, conversei nos intervalos do seu árduo trabalho de atender aos convivas – foi o diálogo com o presente e com o passado que tornou possível registrar minhas impressões da noite musical.

Para Cristovão Tezza, “a realização literária parece sempre alargar a perspectiva solitária do indivíduo para criar uma outra forma comunitária, de natureza quase clandestina. É inescapável: escrevemos porque queremos chegar aos outros”.

Quando iniciei a crônica, não estava ouvindo fados, mas sim um CD de Astor Piazzolla; terminei ao som de “Adiós Nonino”, que o músico compôs após a morte do seu pai – e o artista disse que, ao criar esse tango, se sentiu rodeado de anjos.

NOTA: as citações de Cristovão Tezza são de “O espírito da prosa – uma autobiografia literária”, Editora Record, Rio de Janeiro, 2012, p. 83 e 209.

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