segunda-feira, 7 de setembro de 2015

História coletiva/ HIstória singular: que conversa é esta? - Alfredina Nery



Desde a leitura do livro de Saramago “A Caverna” (*), a ficha começou a cair verdadeiramente, mesmo que há tempos (décadas?) já estava lá no fio da navalha! Disseca-se, neste romance, através da história de pessoas comuns, o impacto destruidor da nova economia sobre as economias tradicionais e locais em que toda uma concepção de sociedade se modificava: um artesão de louça de barro teve, acompanhando as mudanças, que se transformar num fazedor de objetos de plástico. Não mais artesão e sim operário. Não mais o sentido do trabalho, como autor do mesmo. E sim o sentido da sobrevivência material, em tempos outros da economia de massa, do lucro, da compra das mentes e afetos.
Saltos no tempo e espaço. Uma família vivia no interior de São Paulo, com a profissão de um artesão: pai, alfaiate. Cinco filhos e mulher. Com o passar dos anos, ninguém mais tinha tempo para esta roupa feita na medida e gosto de cada um, além do talento de quem a fazia. Comprar o tecido, escolher o modelo, levar no alfaiate, tirar medidas, esperar o momento de “provar” a roupa alinhavada, esperar o término da mesma e, por fim, ir buscá-la. E neste meio de tempo, conversar a prosa boa de duas pessoas que se conheciam há tempos, que falavam da vida, dos sonhos, como bons amigos o fazem. Não. Isto começou a ser coisa do passado.
Ir à loja, comprar uma roupa pronta, não precisava comparar o tecido, esperar a confecção... Isto tudo mudava, com a pressa própria da fábrica, da urbanidade, que começava a entrar como uma ferida na vida de todos, sem que o percebessem, mas em nome de um progresso. Qual mesmo?
O pai alfaiate, na década de 60 do século XX, precisava sustentar a família e foram para a capital, em busca de mais trabalho que se rareou na pequena localidade e ainda mais com os filhos crescendo. Lá, virou operário de uma grande alfaiataria. Não mais trabalhar “por conta própria”; não mais fazer a roupa com a satisfação e o tempo de um artesão. Não! Agora era apenas um número, como os fregueses das lojas de roupas. A tristeza desta nova realidade foi aparecendo em seu corpo curvado e lento. Faltava a prosa boa. Faltava o brilho nos olhos ao perceber a beleza da peça que confeccionava exatamente para “aquela” pessoa diante dele. Faltava a autonomia do trabalho. Faltava se reconhecer em cada peça confeccionada, com mãos ágeis, que também tocavam violão e pernas que jogavam futebol.
Mais saltos no tempo. Enquanto pai e mãe estavam vivos, especialmente as chamadas festas de aniversário, de fim de ano e alguns domingos reuniam três gerações, como nas demais famílias. Parecia que isto os alimentava para o ano todo. Com o tempo, alguns rituais familiares foram sendo engolidos na cidade grande. A luta pela sobrevivência apagando identidades, assujeitando sensibilidades, construindo outros caminhos.
E agora, lendo o último artigo de Oliver Sachs “Shabat, o sétimo dia da semana, ou da vida”... (**) a ficha acabou de cair, nesta tentativa de “costurar” um exemplo da história coletiva e da história singular e me compreender melhor nisto tudo. Um homem com o histórico de Sachs retoma os rituais da infância em família enorme, judia, com uma vida comunitária, considerando também suas experiências em outras lugares e tempos, para se fortalecer, para se compreender e para morrer com um câncer! (ele faleceu no dia último dia 30 de agosto)
De repente, fica tão evidente, para mim, como muitos de nós, do mundo contemporâneo, da cidade grande, fomos perdendo as raízes, as poucas que ainda nos restavam. Como explicar com a história coletiva em mente as atitudes de duas famílias que me são próximas? Como entender então que uma irmã e dois irmãos da mesma família morem na mesma cidade, há poucos quarteirões e NUNCA se visitem? Como explicar que uma irmã visite seu filho na mesma cidade do irmão e não vá à sua casa e vice-versa? Como explicar que um irmão passa em frente à casa da irmã, quando viaja para sua casa de praia e não pára para visitá-la e vice-versa?
Estou me referindo ao primeiro núcleo que é a família... O que pensar então, de outros grupos de que (não) participamos? Em que descaminhos da perda de identidade, da perda dos rituais afetivos, da fragmentação e dissolução do sujeito contemporâneo estamos?

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(*) A caverna é uma história de gente simples: um oleiro, um guarda, duas mulheres e um cão muito humano. Esses personagens circulam pelo Centro, um gigantesco monumento do consumo onde os moradores usam crachá, são vigiados por câmeras de vídeo e não podem abrir as janelas de casa. É no Centro que trabalha o guarda Marçal. Era para o Centro que seu sogro, o oleiro Cipriano, vendia a louça de barro que fabricava artesanalmente na aldeota em que vive - agora, os clientes do Centro preferem pratos e jarros de plástico. Sem outro ofício na vida, Cipriano perde a razão de viver. E a convite do genro, muda-se para o Centro, essa verdadeira gruta onde milhares de pessoas se divertem, comem e trabalham sem verem a luz do sol e da lua. Enquanto isso, embaixo dos diversos subsolos, os funcionários do Centro descobrem uma estranha caverna. Driblando a vigilância, Cipriano consegue entrar lá dentro. O que descobre é aterrador. Nesta versão moderna do mito da caverna de Platão, José Saramago faz uma apresentação sutil da face cruel do mundo capitalista e tecnológico.
(Sinopse do site da Editora Companhia das Letras que editou o livro, em 2000)
(**) Folha de S.Paulo-06setembro2015- p. 10- ILUSTRISSIMA

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