terça-feira, 29 de setembro de 2015

O último adeus: meu avô Marcelino Matheus Ferro - João dos Reis



“Há palavras lança-chamas,
Conheço algumas que nos fazem viver,
por não serem simples som
mas estradas incendiadas por dentro,
duplos corações batendo com o calor
da certeza do dia que se segue.
(...) Quebrando o meu silêncio,
povoo alguns espaços de alegria.
(...) Nas palavras me encontro.
Cansado, quase morto, à espera,
sempre à espera. Nas palavras vivo,
denuncio ou ataco. Há um grande sol
à nossa espera. Quantos somos?”
Trecho do poema “Algumas palavras” de Eduardo Guerra Carneiro.

Para Anna Rosa Ferro Palacio

Estou sozinho na estação de Duartina à espera do trem para São Paulo. Meu avô Marcelino Matheus Ferro não me acompanha: teve um acidente vascular cerebral e está acamado. Despedi-me dele em silêncio – e foi a última vez que o vi. Foi a imagem mais triste que ficou das minhas férias na minha cidade natal do interior de São Paulo.

Todos os anos ia visitá-lo – era um período de descanso da rotina de trabalho e estudo - e uma volta ao passado familiar. Minha avó Elisa de Jesus Ferro sempre me esperava com meus pratos preferidos: bacalhau à moda de Trás-os-Montes ou lombo assado – e a sobremesa de manjar de côco com ameixas.

Como eram as nossas conversas? Antes de vir para o Brasil, eram agricultores – plantação de vinha, oliveira, figueira -, e do pastoreio de carneiros. Meu avô era de um mutismo absoluto; com ele, nascido nas montanhas do Norte de Portugal, aprendi o segredo das palavras: elas têm uma magia que cabe a nós descobrir a cada vez que precisamos usá-las
.
Procurava saber como foi a travessia do Atlântico em 1926 na viagem de aventura para a América. Que sonhos eles carregavam, deixando os pais e familiares? Era um piá – e mesmo quando adolescente e na juventude, perguntava a eles: o que esperavam do Novo Mundo?

Tia Aurora e a pequena Sonia - que morreram muito jovens -, e minha avó paterna Pasqualina Negrini dos Reis estavam sepultadas no cemitério da cidade. Acompanhei muitas vezes minha avó Elisa nas visitas e nas orações a elas, que partiram inesperadamente: o mistério da vida e da morte estava sempre presente.

Vocês devem ainda estar me perguntando: como era o nosso diálogo? Lia para eles as cartas que vinham de Portugal – e que falavam do trabalho com a terra, a neve de dezembro, o cotidiano na aldeia. Na foto, a tia-avó Piedade, octagenária, de cabelos brancos, olhando-nos - e eu me perguntava: ela estava feliz, solitária, sob os cuidados de dois sobrinhos solteiros que permaneceram em Trás-os-Montes? Nas imagens, eles apareciam em frente a uma casa construída com pedras: como eles enfrentavam o frio e o vento do inverno?

Tia Anna Rosa me contou há anos que não havia mais descendentes dos Ferro na província – todos partiram para a França. Uma noticia recente - de uma amiga dela que esteve viajando pela Europa - revelou que ainda há parentes que vivem na região. Estamos planejando uma viagem – mas há um oceano a nos separar das nossas raízes trasmontanas.

Era sempre meu avô Marcelino que me acompanhava à estação de trem – e eu me despedia beijando a sua mão– e o fiz desde criança. Lembro que depois o abraçava e agradecia a garrafa de vinho que ele abrira para comemorar a minha visita.

Meu avô me presenteou com a bíblia do século XIX que ele ganhou do meu bisavô. Outra recordação é uma pedra que tenho na mesa da minha casa: ele a usava como apoio aos papéis de embrulho. É ela a presença mais visível dele e da nossa convivência mergulhada em silêncio – que descobri mais tarde tinha sido muito feliz.

Estava lecionando no Litoral Norte de São Paulo, e tinha vindo visitar minha mãe em Osasco – não soube que, no domingo , dois de março de 1975, em que retornava ao Litoral Norte, ele faleceu. Não havia telefone onde morava, e só fui informado na manhã de 3ª feira por Antonia Carlota Gomes, diretora da escola onde trabalhava em Caraguatatuba. À tarde procurei a solidão da praia deserta para o meu último adeus.

NOTA: o poema “Algumas palavras”, de Eduardo Guerra Carneiro, in “Antologia da poesia portuguesa contemporânea – um panorama”, org. de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Editora Lacerda, Rio de Janeiro, 1999, pp.371/372.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

REFLEXÕES sobre “Herdando uma biblioteca”, de Miguel Sanches Neto - João dos Reis



Para Linda Kawakita

“Não venho de uma biblioteca paterna, e sim de sua ausência. Tive que buscar a figura do pai em amigos e autores e fiz das afinidades culturais o caminho para esta família, dispersa no tempo e no espaço, que a literatura me deu”(p.34)

Um livro que marcou a temporada no Sul do Brasil foi “Herdando uma biblioteca”, de Miguel Sanches Neto (Editora Record, Rio de Janeiro, 2004, 144 pp.). Reli-o recentemente, e me trouxe recordações como na primeira leitura.

A pequena cidade do interior paranaense de Peabiru estava em “uma região onde importava menos participar da cultura universal do que desbravar uma terra que não dava descanso aos homens” (p. 9) De uma família de lavradores, não havia livros em sua casa - a Biblia ele ganhou do dono de uma sorveteria, e foi a única leitura dele até os 13 anos. Nos manuais escolares as anotações eram a lápis, porque seriam apagadas - para no ano seguinte ser usados pelos irmãos ou outros alunos. Quando foi para o Colégio Agrícola em Campo Mourão, os instrumentos de estudo eram tratores, arados, semeadeiras, grades niveladoras – e foi nessa cidade que entrou pela primeira vez em uma livraria.

Foi um aprendizado a frequência ao mundo da literatura:“Como não tive uma biblioteca familiar, não herdei conceitos nem preconceitos, sendo obrigado a buscar por conta própria os livros que tinham algo para me dizer” (p. 123).

Por que as crônicas do autor me tocaram mesmo em uma releitura? Lembrei da minha descoberta em Gália, no centro-oeste paulista: o prefeito João Ferreira criou uma biblioteca pública no prédio da prefeitura: fiquei encantado com a quantidade de livros; tinha livre escolha, mas apenas da secção infantil. E, depois de alfabetizado, o primeiro (e único) livro que ganhei da minha tia Anna Rosa: “O patinho feio”, de Hans Christian Andersen. Por falta de opção, comprava semanalmente na banca de jornais a revista do Pato Donald - cheguei a ter uma coleção.

Com 12 anos, já morando em Osasco, no Ginásio de Presidente Altino (Gepa), o professor de História, Josué Augusto da Silva Leite emprestava livros nos intervalos das aulas: li José de Alencar, Machado de Assis e Monteiro Lobato, indicados por ele. Ao querido mestre sou muito grato por me apresentar aos grandes escritores, desconhecidos pelo menino caipira do interior – e pelo presente no final do ano, um dicionário de francês.

Minha dívida com o professor de Latim e Português do Gepa e do Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares (Ceneart), Fernando Buonaduce, é impagável: ele me deu livre acesso à biblioteca da sua casa; e foi lá que encontrei os livros de literatura da Coleção Saraiva e do Clube do Livro – que me apresentaram os escritores contemporâneos.

Mais tarde Miguel Sanches Neto formou seu acervo particular, publicou seus próprios livros, passou a frequentar livrarias e sebos, bibliotecas públicas. Ele revela: “entramos nelas com um sentimento de orgulho por fazer parte daquele vasto universo, constituído ao longo dos séculos para satisfazer nossas necessidades de distração e conhecimento” (p.57).

Eu também tive meus pais e avós imigrantes ligados ao trabalho na terra – e não eram leitores; havia em minha casa apenas dois volumes de medicina natural; a bíblia do meu avô materno era uma edição resumida do século XIX, que ele me presenteou pouco antes de morrer.

Trabalhei quatro anos na Biblioteca "Monteiro Lobato" em Osasco, quando era estudante universitário, mas havia poucos livros e espaço – e nunca tive tempo para frequentar a biblioteca da USP ou a Mario de Andrade em São Paulo. Morando na capital paranaense, frequentei livrarias, sebos, e às vezes, a biblioteca do meu bairro, o Farol do Saber, ou da rua da Cidadania (subprefeitura).

Foi com dificuldade, aos poucos, que iniciei minha coleção. Em Curitiba, foi um processo inverso: a doação de dezenas deles para a biblioteca do Museu Metropolitano no bairro Portão ou de alguns para o amigo Ewerton; já morando em Cotia, como a biblioteca da cidade não aceitava doações, contribuí para formar uma pequena biblioteca na subsede do sindicatos dos professores (Apeoesp), e vendi outros para o sebo “Livraria Universo Literário” de Osasco.

O piá do interior do Paraná que buscava nos livros um novo mundo adaptou um anexo na sua casa para abrigá-los, tornou-se mais tarde professor de Literatura da Universidade Estadual de Ponta Grossa, escritor e crítico literário. Eu continuo um leitor que não pretende mais guardá-los – ainda tenho algumas centenas deles em casa, mas cada vez mais procuro fazer com que circulem pelas cidades em que deixei amigos, estive de passagem e que aprendi a amar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

LEMBRANÇAS, ainda lembranças... João dos Reis


Para Sergio Emanuel Dias Campos, do Rio de Janeiro

Ciça Marinho (Maria Anunciação Nunes Marinho) canta o fado “Igreja de Santo Estevão” na Quinta do Bacalhau, na Estrada de Caucaia, em Cotia, no sábado, 12 de setembro de 2015. Acompanhada do também fadista Tiago Felipe, da guitarra portuguesa de Wallace Oliveira e do violão de Sergio Borges, a noite trouxe de volta as lembranças da minha infância.

Com 7 anos ouvia junto com meu pai Antonio, na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, um programa apenas de fados no rádio a pilha. Depois, já morando na cidade de Gália, SP, continuei um ouvinte assíduo da música da minha mãe e dos meus avós portugueses. Qual a influência desses relatos de saudades, de tristezas, de “nostalgias, de não sei o quê – de tudo o que a vida tem, de tudo mesmo”, como me escreveu Sergio Emanuel, comentando minhas últimas crônicas, e deixando-me honrado com a frase : “artista que és, sabes do que se trata”.

Tinha 16 anos no curso Clássico no Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares (Ceneart) e descobri a bossa nova pela professora de Literatura e Língua Portuguesa, Darly Nicolanna Scornaenchi: ela trouxe uma vitrola portátil para a sala de aula para ouvirmos Vinicius de Moraes e Carlos Lira. Foi uma novidade: eu, que na infância vivi a tristeza do fado, descobri a alegria nos versos do poeta.

O que dizia Vinicius de Moraes em “Minha namorada”, que me encantou? “Você tem que vir comigo em meu caminho / E talvez o meu caminho seja triste para você / Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos / Os seus braços o meu ninho / No silêncio de depois/ E você tem que ser a estrela derradeira / Minha amiga e companheira / No infinito de nós dois”.

Na minha visita recente a Pedro Paulo, em Ubatuba, ouvimos o último CD de Chico Buarque – e procurei fugir dos temas da política contemporânea porque não vejo sinais de esperança de um novo tempo. Conversamos sobre a presença do compositor-escritor e as nossas vivências literárias. O que o artista nos revela, mas nós não conseguimos expressar com as palavras? Perguntei ao amigo-poeta: quem ainda hoje admiramos? E quais são as nossas leituras?

O papel da música na minha infância e adolescência despertou a reflexão: por que ela nos conduz, desafiando o ramerrão cotidiano, ao mundo da beleza? Por que os sentimentos como a tristeza e a alegria, a dor e a compaixão, recriados pela imaginação artística, são capazes de nos deixar mais próximos da humanidade?

As interrogações são possíveis porque somos capazes de sentir a vida como uma permanente viagem – e a música e a literatura podem ser nossas companheiras nessa aventura desesperada.

Quando escrevo, sinto a inadequação de que fala Cristovão Tezza, que foi a mais prazerosa descoberta na minha temporada no Sul do Brasil. Por que escrevo? Para quem escrevo? Ele diz que “pessoas felizes não escrevem”, e que o escritor “tentará recuperar, pelo trabalho beneditino da escrita, a sua alma usurpada”.

O restaurante no sábado de 12 de setembro estava lotado, mas eu estava sozinho: meus caros amigos Edna Maria e Erasmo não puderam me fazer companhia. Com a jovem garçonete Ana, minha vizinha no bairro Tijuco Preto, conversei nos intervalos do seu árduo trabalho de atender aos convivas – foi o diálogo com o presente e com o passado que tornou possível registrar minhas impressões da noite musical.

Para Cristovão Tezza, “a realização literária parece sempre alargar a perspectiva solitária do indivíduo para criar uma outra forma comunitária, de natureza quase clandestina. É inescapável: escrevemos porque queremos chegar aos outros”.

Quando iniciei a crônica, não estava ouvindo fados, mas sim um CD de Astor Piazzolla; terminei ao som de “Adiós Nonino”, que o músico compôs após a morte do seu pai – e o artista disse que, ao criar esse tango, se sentiu rodeado de anjos.

NOTA: as citações de Cristovão Tezza são de “O espírito da prosa – uma autobiografia literária”, Editora Record, Rio de Janeiro, 2012, p. 83 e 209.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Osasco: um novo jornal, o “Primeira Hora" _ João dos Reis


“Brasil: a policia que prende, tortura e mata” dizia a manchete do “Primeira Hora” do inicio dos anos 90. Na semana seguinte, estudantes protestavam em frente à Câmara Municipal – e Marcelino Jesus de Lima, jornalista do semanário, foi espancado com um cacetete por um policial quando fazia uma reportagem sobre a manifestação.

Essa é uma das lembranças da minha colaboração para o jornal, que foi fundado por Antonio Roberto Espinosa em 1985 e que circulou até 2000. Nos primeiros anos, escrevi resenhas de livros. Depois, retomei a militância pelo novo canal de comunicação: escrevi textos a partir dos relatórios da Anistia Internacional, como o da manchete acima, que foi elaborada pelo editor. Foi um desafio premeditado à truculência policial nesse inicio da redemocratização no país.

Osasco foi um bairro de São Paulo, e quando tornou-se independente em 1962, teve sempre a imagem marcada pela criminalidade. Foi uma propaganda deliberada de vincular a cidade à violência, uma represália à revolta de estudantes e trabalhadores em 1968. Finalmente, tínhamos um jornal que discutia política, economia, literatura, entre outros assuntos comuns à pauta jornalística.

A recordação ficou gravada na memória: a primeira redação na Avenida Carlos de Morais Barros, na Vila Campesina: Jesse Navarro e os jovens Fábio Sanches, Luis Brandino e Marcelino. Foi com eles que tive um convivio mais próximo. Colaboradores contribuíram com o seu trabalho voluntário para essa empreitada: as irmãs Mércia e Risomar Fasanaro, Horácio Coutinho, Geraldo Carlos Nascimento, Albertino Souza Oliva, e muitos outros.

Com a equipe de intelectuais da comunicação mantive laços de amizade – e ainda hoje tenho noticias deles, informações onde trabalham. Não sei se eles escreveram sobre essa experiência - a construção de uma nova visão da cidade da periferia da metrópole.

Minha visão e reconstrução das imagens é sempre marcada pela subjetividade. Muitos outros recortes da realidade da cidade poderiam surgir – e cabe aos personagens participantes dessa experiência contá-la para os osasquenses do novo século.

Tinha voltado ao magistério em 1984, e distribuía alguns exemplares do jornal para os representantes de classe das escolas “”Vicente Peixoto” e “José Maria Rodrigues Leite” em que lecionava Filosofia. Dizia aos alunos: “o jornal é o pão do filósofo”, o ponto de partida para a reflexão sobre o cotidiano, a realidade da cidade, do país.

A História tem um registro desses anos esquecida. Hoje, quem pretende conhecer o passado de Osasco desse período, não tem onde consultar; uma coleção com um exemplar de cada edição do jornal permanece à espera de um projeto de digitalização – e assim, torná-la acessível aos pesquisadores.

Depois de tantos anos, me pergunto: que lembranças permanecem nos meus alunos e nos leitores das inúmeras páginas que escrevemos? No arquivo pessoal da memória ficou uma entrevista realizada por Risomar com o luthier, um construtor de violino. Um personagem até então anônimo, desconhecido – e que foi descoberto pela artista plástica Cristina Leite.

Fui professor por mais de duas décadas, e pensava que o discurso verbal se perdia na sala de aula. A marca desse tempo de colaboração com o jornal foi imprimir as ideias, as reflexões, as informações – uma responsabilidade de quem escreve. Porque me perguntava ao entregar os artigos para o editor: quem é o leitor? As palavras têm a força de mudar o mundo, as pessoas? Não tinha ilusão, mas sabia, com certeza, que não era um combate perdido, depois de anos de censura durante a ditadura militar.

E encerro com a mensagem que Antonio Roberto Espinosa escreveu para os que estiveram no reencontro que se realizou domingo, dia 13:

"Para os companheiros-camaradas de Osasco, a cidade proletária, dizia: o “Primeira Hora” é o instrumento que dispomos para confrontar a imprensa burguesa dominante. E, apesar do pessimismo de muitos, foi com a arma das palavras que nos preparamos para as novas batalhas do futuro.Fraternidade e Verdade pra sempre!

O espírito irrequieto, a curiosidade e o bom humor nunca nos faltaram, assim como a disposição para a reportagem e a vontade do texto bem construído, da fotografia única, da ilustração aguda e da página bem equilibrada. Escrever até que não é difícil. O difícil é ser lido e respeitado. PH foi caso único de bom gosto e irreverência, trabalho até de madrugada e alegria a cada exemplar impresso. Somos o produto do amor pela verdade e da paixão pela liberdade e a igualdade.

O jornal acabou, para nós, na edição 927, quando lhe desejamos que seguisse sua marcha com dedicação e sorte. Infelizmente enquanto veículo o PH não sobreviveu muito tempo. Mas a busca da verdade, que sempre o caracterizou, a fraternidade e a união do pessoal que o fazia permanecem vivos em nós. Seguem em cada um dos que o tornaram realidade, um momento sublime em nossas vidas e na história de Osasco e Região. Este almoço, quinze anos depois do fim, é uma mostra de que a luta pela liberdade é sempre uma jovem senhorita e está sempre na puberdade. E que seguimos em frente!


Osasco, 13 de setembro de 2015

Jornal PRIMEIRA HORA"

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

RECORDAÇÕES de Curitiba e do Litoral Norte paulista - João dos Reis



“Amigo para mim é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é”. João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”.

Para Stezel e Sandra Ceschini Sussmann

Estava com Ewerton no bar e ele pediu “carne de onça”. “Pierog” era o prato aos domingos – na minha casa e também na de Felis, de Araucária, na região metropolitana; para acompanhar o vinho Campo Largo na Lanchonete Badech, pedia uma “vina”. No Supermercado Videira no bairro Pinheirinho pedia duas “cuecas viradas”, uma dúzia de “banana caturra” e de “mimosa”; e no açougue, 200 gramas de “posta branca e vermelha”. Nas ruas, respeitava o sinaleiro; os problemas com o carro resolvia fazendo geometria ou procurava o estofador e o latoeiro. Essas são algumas das palavras usadas em Curitiba – e que eu tive que me adaptar durante a minha temporada entre 1999-2005.

Foi difícil viver a realidade do Litoral Norte paulista – Caraguatatuba, São Sebastião, Ubatuba e Ilha Bela – nos anos 70. Não houve um outro universo vocabular, mas um choque cultural: as comunidades tradicionais passavam por um processo acelerado de mudança. A construção da Rodovia Rio Santos ameaçava a cultura caiçara, preservada durante séculos. As danças, folguedos, as festas, a linguagem podiam desaparecer com a invasão dos novos habitantes: migrantes e os novos proprietários das terras.

Como pensar essas duas realidades culturais depois de muitos anos? Durante minha residência em outras cidades, deixei amigos-camaradas. Tenho contato com alguns deles até hoje, mas muitos se perderam pelo caminho – permanecem as imagens, as lembranças. Como me redimir pelo abandono de alguns deles, que foram sempre companheiros fiéis e solidários? Recordo que fui convidado e passei o fim de semana na casa de uma aluna na praia do Lázaro em Ubatuba – a família era de pescadores; nunca mais tive informação deles.

As minhas últimas crônicas são uma retomada dessas recordações – e daqueles que foram importantes na longa aventura pelo litoral paulista ou pelo Sul do Brasil. Me pergunto: o que ficou desse período de confraternização e camaradagem? Há alguma possibilidade de que os laços de amizade permaneçam?

No tempo presente, em que a comunicação acontece a todo o momento, é difícil entender como é possível não saber noticias, que aqueles que nos são caros, “desaparecem” na vastidão do nosso planeta. De Curitiba, sei noticias dos amigos – por e-mail, pelo celular. Do Litoral Norte paulista retomei a amizade, depois de décadas, com o professor-poeta – e “conversamos” pela internet ou por telefone.

Depois de oito anos, retornei a Curitiba: reencontrei Arthur, o piá com quem convivi mais tempo - ele é hoje um jovem de 17 anos, estudante de Filosofia e piano; Ewerton, o pai dele, é hoje um “restauranteur” e sommellier. Felis, o amigo de Araucária, continua no trabalho na agricultura no sitio da família. A amiga Mazé, artista plástica, está presente na vida cultural curitibana. O professor-poeta Pedro Paulo se aposentou – e ainda é atuante na vida política da cidade de Ubatuba.

E vocês devem estar me interrogando: e eu, qual o meu destino depois de tantos caminhos? Não sei - respondo à pergunta: para os viajantes, não há um porto de chegada, estamos sempre “em trânsito”, como transitória é a vida.

Para vocês, que devem estar curiosos sobre o significado do “curitibês” do inicio da crônica: “carne de onça” é um prato à base de carne moída crua; “pierog” é um pastel de origem polonesa; “vina” é salsicha; “cueca virada” é um biscoito; “banana caturra” é banana nanica; “mimosa” é mexerica; “posta vermelha” é colchão duro – “posta branca” é lagarto; “sinaleiro” é semáforo; “fazer geometria” é o alinhamento das rodas do carro; “estofador” é tapeceiro; “latoeiro” é funileiro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

REFLEXÕES sobre “O professor”, de Cristovão Tezza, - João dos Reis



Para o professor Erasmo d’Almeida Magalhães

“... repetir o mesmo gesto de milhares de vezes, atravessar a porta dupla com meu passo solene, sorrir discretamente para os 60 alunos de sempre, colocar livros, pastas com textos corrigidos e caderneta de chamada sobre a mesa, e (...) então eu diria ‘bom dia’”. A rotina do personagem do livro do escritor Cristovão Tezza é abalada com a chegada de uma nova aluna.

O livro é uma reflexão de Heliseu da Motta e Silva, sobre as lembranças do passado. “A memória obedece à lógica fotográfica”, diz o personagem, e é “preciso organizar a memória ou jamais descobrirei o sentido da minha vida”. Assistimos o desenrolar de um dia na vida do professor de Filologia Românica; ele receberá uma homenagem na universidade onde lecionou por décadas.

Quem é Therèze, a discípula que apresenta um mundo de sentimentos ainda não vividos pelo pacato mestre? Qual o papel desempenhado por Monica, a esposa que faz parte desse mundo ordenado, mas sem a esperança de um futuro luminoso? E como a morte dela em uma situação trágica leva-nos a suspeitar de um crime, embora carregado de contradições? Por que a presença e ausência do único filho é um sentimento doloroso?

Descobri o escritor catarinense nos anos que vivi em Curitiba. Li todos os seus livros – buscando nas bibliotecas da cidade. O que mais me impressionou foi “Trapo”, de 1998. O professor de Linguistica da Universidade Federal do Paraná era, então, um ilustre desconhecido na cena cultural brasileira, apesar de já ter publicado outros livros por editoras do Sul e ser um cronista frequente do jornal “Gazeta do Povo”.

Heliseu, o personagem, está com 70 anos. É a descoberta da velhice, essa”tranquila proximidade da morte”: “eu não era mais contemporâneo dos meus alunos”, diz ele. Como não reconhecer o conflito de sentimentos do professor que não se engajou nas lutas do seu tempo? É o histórico de uma vida sem as emoções da juventude. Para quem está revendo as imagens e as pessoas da sua biografia, qual é o balanço final?

“Nunca tive o dom, ou o poder, da solidão, aquela coisa espessa e impenetrável que fez a vida do meu pai: ‘eu não preciso de ninguém’, ele sempre me dizia, o que era a um tempo um conselho, uma maldição e uma ameaça”. No apartamento, enquanto se prepara para a sessão em que será homenageado, o personagem reflete – o livro intercala o tempo passado e o presente.

Como o personagem enfrenta o dilema de encontrar um sentido para o seu destino? “... aquele silêncio tranquilo de gestos previsíveis, o cronograma das horas e das atividades (...) a aceitação pacificada da rotina e da convivência mecânica, as engrenagens miúdas e grandes que vão nos moendo (...), pois chega um instante em que cai um grão de areia nas rodas mentais, um encontro desacertado de dentes girando em falso, e nos vemos perdidos, de volta ao acaso da realidade, e sentimos que a máquina vai destrambelhar, todas soltas, molas estouradas”.

Os livros de Cristovão Tezza foi uma revelação para mim no final dos anos 90. O escritor nasceu em Lages, Santa Catarina, mas quando tinha sete anos mudou-se para Curitiba, onde vive até hoje. Tornou-se conhecido depois de ganhar todos os prêmios literários com “O filho eterno”- e ser traduzido em mais de uma dezena de países. Ao lado de Dalton Trevisan, é a presença literária que mais marcou minha temporada no Sul. Em uma cidade em que as pessoas se encontram - nos bares, cinema, teatro, livrarias – eu perambulava pelas ruas, esperando encontrá-los um dia - e refletia como seus personagens: vivemos o desencontro, e não há saídas, estamos condenados à solidão.

NOTA: Sou grato a Erasmo d’A.Magalhães e Edna M.Fernandes dos Santos por me presentear com o livro “O professor”, de Cristovão Tezza.
"O Professor"-Editora Record, Rio de Janeiro, 2014, 240 pp.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Telas em pintura abstrata de Risomar Fasanaro - à venda


História coletiva/ HIstória singular: que conversa é esta? - Alfredina Nery



Desde a leitura do livro de Saramago “A Caverna” (*), a ficha começou a cair verdadeiramente, mesmo que há tempos (décadas?) já estava lá no fio da navalha! Disseca-se, neste romance, através da história de pessoas comuns, o impacto destruidor da nova economia sobre as economias tradicionais e locais em que toda uma concepção de sociedade se modificava: um artesão de louça de barro teve, acompanhando as mudanças, que se transformar num fazedor de objetos de plástico. Não mais artesão e sim operário. Não mais o sentido do trabalho, como autor do mesmo. E sim o sentido da sobrevivência material, em tempos outros da economia de massa, do lucro, da compra das mentes e afetos.
Saltos no tempo e espaço. Uma família vivia no interior de São Paulo, com a profissão de um artesão: pai, alfaiate. Cinco filhos e mulher. Com o passar dos anos, ninguém mais tinha tempo para esta roupa feita na medida e gosto de cada um, além do talento de quem a fazia. Comprar o tecido, escolher o modelo, levar no alfaiate, tirar medidas, esperar o momento de “provar” a roupa alinhavada, esperar o término da mesma e, por fim, ir buscá-la. E neste meio de tempo, conversar a prosa boa de duas pessoas que se conheciam há tempos, que falavam da vida, dos sonhos, como bons amigos o fazem. Não. Isto começou a ser coisa do passado.
Ir à loja, comprar uma roupa pronta, não precisava comparar o tecido, esperar a confecção... Isto tudo mudava, com a pressa própria da fábrica, da urbanidade, que começava a entrar como uma ferida na vida de todos, sem que o percebessem, mas em nome de um progresso. Qual mesmo?
O pai alfaiate, na década de 60 do século XX, precisava sustentar a família e foram para a capital, em busca de mais trabalho que se rareou na pequena localidade e ainda mais com os filhos crescendo. Lá, virou operário de uma grande alfaiataria. Não mais trabalhar “por conta própria”; não mais fazer a roupa com a satisfação e o tempo de um artesão. Não! Agora era apenas um número, como os fregueses das lojas de roupas. A tristeza desta nova realidade foi aparecendo em seu corpo curvado e lento. Faltava a prosa boa. Faltava o brilho nos olhos ao perceber a beleza da peça que confeccionava exatamente para “aquela” pessoa diante dele. Faltava a autonomia do trabalho. Faltava se reconhecer em cada peça confeccionada, com mãos ágeis, que também tocavam violão e pernas que jogavam futebol.
Mais saltos no tempo. Enquanto pai e mãe estavam vivos, especialmente as chamadas festas de aniversário, de fim de ano e alguns domingos reuniam três gerações, como nas demais famílias. Parecia que isto os alimentava para o ano todo. Com o tempo, alguns rituais familiares foram sendo engolidos na cidade grande. A luta pela sobrevivência apagando identidades, assujeitando sensibilidades, construindo outros caminhos.
E agora, lendo o último artigo de Oliver Sachs “Shabat, o sétimo dia da semana, ou da vida”... (**) a ficha acabou de cair, nesta tentativa de “costurar” um exemplo da história coletiva e da história singular e me compreender melhor nisto tudo. Um homem com o histórico de Sachs retoma os rituais da infância em família enorme, judia, com uma vida comunitária, considerando também suas experiências em outras lugares e tempos, para se fortalecer, para se compreender e para morrer com um câncer! (ele faleceu no dia último dia 30 de agosto)
De repente, fica tão evidente, para mim, como muitos de nós, do mundo contemporâneo, da cidade grande, fomos perdendo as raízes, as poucas que ainda nos restavam. Como explicar com a história coletiva em mente as atitudes de duas famílias que me são próximas? Como entender então que uma irmã e dois irmãos da mesma família morem na mesma cidade, há poucos quarteirões e NUNCA se visitem? Como explicar que uma irmã visite seu filho na mesma cidade do irmão e não vá à sua casa e vice-versa? Como explicar que um irmão passa em frente à casa da irmã, quando viaja para sua casa de praia e não pára para visitá-la e vice-versa?
Estou me referindo ao primeiro núcleo que é a família... O que pensar então, de outros grupos de que (não) participamos? Em que descaminhos da perda de identidade, da perda dos rituais afetivos, da fragmentação e dissolução do sujeito contemporâneo estamos?

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(*) A caverna é uma história de gente simples: um oleiro, um guarda, duas mulheres e um cão muito humano. Esses personagens circulam pelo Centro, um gigantesco monumento do consumo onde os moradores usam crachá, são vigiados por câmeras de vídeo e não podem abrir as janelas de casa. É no Centro que trabalha o guarda Marçal. Era para o Centro que seu sogro, o oleiro Cipriano, vendia a louça de barro que fabricava artesanalmente na aldeota em que vive - agora, os clientes do Centro preferem pratos e jarros de plástico. Sem outro ofício na vida, Cipriano perde a razão de viver. E a convite do genro, muda-se para o Centro, essa verdadeira gruta onde milhares de pessoas se divertem, comem e trabalham sem verem a luz do sol e da lua. Enquanto isso, embaixo dos diversos subsolos, os funcionários do Centro descobrem uma estranha caverna. Driblando a vigilância, Cipriano consegue entrar lá dentro. O que descobre é aterrador. Nesta versão moderna do mito da caverna de Platão, José Saramago faz uma apresentação sutil da face cruel do mundo capitalista e tecnológico.
(Sinopse do site da Editora Companhia das Letras que editou o livro, em 2000)
(**) Folha de S.Paulo-06setembro2015- p. 10- ILUSTRISSIMA

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

LEMBRANÇAS de "Grande Sertão: veredas", de Guimarães Rosa - João dos Reis



“Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil dos pássaros rexenxão – que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a sobre. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açúcar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte”.

Li o livro de João Guimarães Rosa quando tinha 19 anos. Era final de novembro, véspera de vestibular na USP, e eu estava com um mês de férias. Deixei de lado os livros de Filosofia e mergulhei no universo do sertão. Foi o amigo José Campos Barreto que me emprestou – e me lembro dele comentando o livro na porta da sala de aula do Colégio Antonio Raposo Tavares (Ceneart), onde estudávamos.

Conhecia o escritor pelos pequenos contos da revista de medicina “Pulso”, no Hospital São Germano em Osasco, onde trabalhava quando tinha 16 anos. No curso Clássico, a professora Laura Amélia Alves Vivona fez um comentário emocionado do livro em uma das suas magistrais aulas.

A amizade dos dois jagunços, Riobaldo e Reinaldo-Diadorim é, talvez, a história de amor mais apaixonante da literatura brasileira. Porque é um amor impossível de ser declarado. Riobaldo nos conta sua vida: nas andanças e nos entreveros com grupos rivais ou com forças policiais, Diadorim é a personagem misteriosa e querida. “Eu vinha tanto tempo me relutando, contra o querer gostar de Diadorim mais do que, a claro, de um amigo se pertence gostar”. Mas ele confessa que “mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre”.

Não há uma narrativa linear: é a descoberta do mundo do sertão e do afeto pelo companheiro. “Primeiro fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora”.

O conflito vivido pelo jagunço é marcado pela dúvida: “De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalho rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa?” Mas ele reflete: “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso da loucura”.

Quando li o livro há mais de quarenta anos, eu já sabia o final - o que não impediu da emoção final: quando Riobaldo descobre quem é Reinaldo-Diadorim, “tal que assim desencantava, num encanto terrível”. E diz ele, “solucei meu desespero”: “Eu não sabia por que nome chamar: eu exclamei me doendo: -‘meu amor!’”.

Quando na prova oral do vestibular o professor me perguntou “qual o último livro que li”, respondi:“Crime e castigo”, de Dostoiévski, que tinha lido com 16 anos - e não sei porque não citei “Grande sertão: veredas”. Da conversa com Barreto permaneceram apenas as imagens: as palavras desapareceram da memória. O exemplar que tenho hoje comprei nos anos 80 - e passaram-se mais de quarenta anos para eu reler o livro em agosto de 2015.

O que conversaria hoje com Barreto e com Dona Laura, se eles estivessem presentes? Com o amigo, diria que a guerra de movimento dos sertanejos foi um aprendizado para a guerra de guerrilha; com a professora, diria que, como na adolescência, continuo apaixonado pela beleza da linguagem poética do livro.
“Sertão sendo do sol e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, por sobre... Travessia perigosa, mas é a da vida.”