segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Trinta e cinco anos depois: crônica de um reencontro em Ubatuba, SP, em agosto de 2015 - João dos Reis



Para Marilena Silva Azevedo, da Fundart de Ubatuba

“Viver é muito perigoso (...) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”

Cheguei de viagem em Ubatuba e na noite de 21 de agosto de 2015 estou na casa de Pedro Paulo Teixeira Pinto; ele preparou uma pizza e me contou das dificuldades do período em que foi prefeito da cidade nos anos 1983-1988. Foi um reencontro depois de 35 anos.

Na sala da casa, em meio a muitos livros e discos, eu não sabia como retomar a amizade, perdida no tempo, mas nunca esquecida. Disse a ele que tive noticias dele há muitos anos por Gilmar Rodrigues Rocha e Angela Bernardes de Andrade Gil, meus ex-alunos da Escola Estadual Capitão Deolindo de Oliveira Santos, em que eu e Pedro Paulo éramos professores. Durante os dois dias em que estive na cidade, conversamos sobre o longo período em que estivemos sem contato - minha partida em 1999 para o Sul do Brasil me distanciou de muitos companheiros.

Procurei me informar sobre o trabalho do professor de Literatura e Lingua Portuguesa na Fundart (Fundação de Cultura e Arte), criada por ele em 1987: o movimento pela preservação da memória caiçara. Ele me indicou livros e textos da sua biblioteca do histórico de luta pela identidade da população do litoral paulista.

A preservação do artesanato, das danças, dos instrumentos musicais, do linguajar, das práticas e festas religiosas foi tema dos nossos diálogos. O território quilombola de Camburi, a aldeia guarani Boa Vista no sertão do Promirim, a criação de unidades de proteção e de uso sustentável (parques, estações ecológicas, reservas biológicas, áreas de proteção ambiental, reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável) foram algumas das questões que me interessaram conhecer.

Presenciei nos anos 70 em que vivi no Litoral Norte paulista os problemas da migração (de outras regiões brasileiras para o litoral), o crescimento demográfico, a partida dos jovens para o planalto – um movimento em busca de trabalho. E o surgimento de um ciclo de turismo e veranismo – um processo que acelerou a destruição da cultura caiçara: a pesca, a caça e a agricultura de subsistência. Os antigos moradores da região venderam suas terras, abandonaram os ranchos de pesca à beira-mar, mudaram para as encostas e se tornaram caseiros dos novos donos.

O professor-poeta e ex-prefeito me mostrou a nova cidade, e no passeio a pé pelo centro histórico, me apresentou aos seus inúmeros amigos que encontramos a todo o momento: como um velho amigo que reapareceu depois de muitos anos. Apresentou-me ao sapateiro: na sapataria há música, e é onde Pedro Paulo às vezes descansa após o almoço; e na padaria onde fomos tomar café, me apresentou ao pedreiro, que reclamou das dores na coluna, pois trabalhara décadas carregando material de construção para as casas nas encostas. À noite fomos jantar na companhia de Marilena Silva Azevedo no restaurante Perequim, e depois, até à madrugada, ouvir o músico Rodi cantar no bar Patto Loko na rua Baltazar Fortes, na Barra dos pescadores.

O passagem do tempo, os anos em que estivemos mergulhados na luta cotidiana, não foram capazes de apagar as lembranças e a camaradagem. Recordei a série de reportagens realizadas por sua ex-companheira, Celia Maria Tanure Romano, para “O Estado de São Paulo” nos anos 70 sobre a destruição provocada pela construção da Rodovia Rio-Santos nas comunidades caiçaras. O professor-pesquisador me falou dos que sobreviveram ao progresso e ao turismo, à devastação da mata e da cultura tradicional.

Na primeira noite do reencontro, Pedro Paulo olhou para mim, e disse: “ João, você não pensou que um de nós poderia ter morrido e esse encontro nunca aconteceria?” Me desculpei: eu que deveria tê-lo procurado antes, já que sabia que ele nunca abandonara a sua cidade. E deveria ter acrescentado: eu sempre tive um destino errante – e na vida fui um navegante solitário e inveterado.

Sob um céu azul e iluminado pelo sol de inverno de agosto em Ubatuba eu me interroguei: até quando continuarei minha viagem?

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