terça-feira, 18 de agosto de 2015

RELATO: uma reunião da Comissão da Verdade de Osasco – agosto de 2015 - João dos Reis



Para Antonio Roberto Espinosa

“E acusam-nos de não promover a reconciliação nacional, de alimentar os ódios e os ressentimentos, de impedir o esquecimento. Mas não é isso. Não nos movem, nem o ressentimento nem o espírito de vingança; só pedimos a Verdade e a Justiça (...), entendendo que só poderá existir reconciliação depois do arrependimento dos culpados e de uma Justiça fundamentada na Verdade”, Prefácio de 1984 do “Nunca Más - Informe da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas na Argentina”, presidida por Ernesto Sábato

Às 20 horas de 11 de agosto de 2015 termina a reunião da Coordenação da Comissão Municipal da Verdade de Osasco. Olho para os rostos dos presentes: a impressão é de cansaço. Todos os participantes são voluntários – uma colaboração militante com o trabalho de pesquisa e documentação dos anos de repressão e terror policial na cidade durante a ditadura militar.

Foi um ano de reuniões semanais nas cinco subcomissões (Agentes de Estado, Equilibrio Federativo, Entidades Civis, Vitimas, Locais) e da coordenação desde que criada em agosto de 2014 por um projeto do Executivo e aprovada pelo Legislativo, sob a coordenação geral de Albertino Souza Oliva e, a partir de 2015, do vice-coordenador Luciano Jurcovichi Costa, e hoje, de Murilo Leal Pereira Neto.

Nas reuniões de que participei havia uma longa pauta a ser cumprida: ofícios encaminhados à Comissão Nacional da Verdade, aos comandantes militares da região, visitas aos locais de detenção e tortura, oitivas dos que foram atingidos pela perseguição policial, pesquisa nos anais da Câmara Municipal, participação no desfile do 7 de Setembro, projeção de filmes-documentários.

E, na subcomissão de que participo, o levantamento de nomes completos, endereços e telefones dos torturadores. Localizamos o telefone de Wilson Damasceno, que foi Presidente da Sociedade Esportiva Ponte Preta do Km 18. Pesquisamos no site da Academia Militar das Agulhas Negras: lá estavam as fotos dos jovens cadetes José Alberto Somavilla e Mauricio Lopes Lima. O que os levou à prática cruel da tortura e assassinato nos centros de detenção? Como convivem com as lembranças do passado? Há algum sinal de arrependimento e culpa? Aceitarão comparecer à uma audiência pública da Comissão da Verdade?

Um relatório preliminar foi apresentado em dezembro de 2014; o texto final está sendo escrito. É o registro para a História dos anos em que a cidade teve o prefeito e vereadores cassados, operários sitiados e presos na greve de 1968, estudantes e militantes de organizações de resistência à ditadura perseguidos, torturados, mortos e exilados. Foi documentado uma das maiores tragédias vividas pelos osasquenses.

Personagens da história de Osasco retornaram à cidade: Gabriel Roberto Figueiredo, Maria Aparecida Bacega, Stanislaw Szermeta - para citar os nomes dos que estive presente nos depoimentos, que foram realizados na Câmara Municipal e no Sindicato dos Metalúrgicos - e transmitidos em tempo real pela TV Câmara ou postados na internet no Youtube pela TV Osasco. Nem todos puderam ser ouvidos; outros apenas lembrados porque foram mortos pela repressão: Carlos Roberto Zanirato, Carlos Lamarca, João Domingues da Silva, José Campos Barreto – e o estudante Sergio Zanardi, que se suicidou nos anos 60.

O trabalho da Comissão revelou: o terror policial deixou sequelas em todos os que ousaram desafiar os que usurparam o poder para humilhar, torturar, matar e “desaparecer”. Ao contrário do que acontece na Argentina, Chile e Uruguai, os algozes de uma geração não serão punidos – e tampouco ouvidos, porque recusam-se a comparecer a uma audiência.

Houve um tempo de guerra durante os anos de resistência; depois um tempo de silêncio e medo. Hoje, há uma redescoberta do passado – recordar, documentar - para que nunca mais aconteça no futuro.



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