quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O reencontro com a poesia e com o professor-poeta - João dos Reis



Para Edna Maria Fernandes dos Santos

LIVRO: “Ser tão mar – poemas”, Jorge Ivan Ferreira e Pedro Paulo Teixeira Pinto, Edição dos autores, Ubatuba, 2008

“Pássaro marítimo
Viajo verdesazuis infinitos
Perseguindo horizontes esquivos
Nas asas dos meus sonhos”.
Poema “Pássaro”, de Pedro Paulo Teixeira Pinto

“Nem em Pasárgada
seria amigo do rei
Além do mais, sempre serei só.
Tanto no Brás como num estádio
de futebol”.
Início do poema “Banzo”, de Jorge Ivam Ferreira

O poeta sempre nos surpreende: com o seu olhar privilegiado sobre as coisas, as pessoas, as paisagens. Para ele, há sempre um mistério a ser desvendado. E ficamos na expectativa de que - inspirado pelos deuses - nos revele os segredos do mundo. Um livro de poesia que chega às minhas mãos é uma agradável descoberta: é o trabalho com a palavra do escritor que torna possível reconhecer o universo.

Recebi o livro de Jorge Ivan e Pedro Paulo, de Ubatuba, com a esperança de descobrir a nova linguagem do poema - construído sob o céu caiçara e embalado pela brisa marítima. Jorge Ivan Ferreira nasceu no interior da Bahia e está na cidade há 16 anos; Pedro Paulo Teixeira Pinto nasceu em São Paulo, mas com 19 dias foi com a família para a Ilha Anchieta; desde 1973 vive na cidade: os dois são professores de Literatura e Lingua Portuguesa em escola pública.

Estive em agosto em Ubatuba – depois muitos anos - para reencontrar Pedro Paulo, professor da Escola Capitão Deolindo de Oliveira. Não foi possível conhecer Jorge Ivan nessa viagem – ele é um desconhecido que se apresenta para mim com seus poemas.

Os versos de Jorge Ivam me fizeram conhecer a sensibilidade do poeta que partiu do sertão baiano para o litoral paulista. Em “Diagnósticos”, é o reconhecimento de “querem-me sempre indignado”, mas ele diz “pois sou mesmo mui resignado”. Para quem percorreu a terra brasileira em busca de um porto de parada, “Oikos” nos avisa que “Ter domicílio é essencial; / Ter um castelo saiu de cena; / Ter uma casa é normal; / Ter um barraco é problema; / Ter um mocó pode dar cana; / Ter um teto é uma reivindicação; / Ter uma mansão é bacana; / Ter um lar é uma abstração”.

Os versos de Pedro Paulo reviveram para mim os anos 70 - de convivência fraternal, de diálogo permanente sobre todas as coisas, de conhecimento da realidade caiçara. Em “Transcendência” ele se apresenta: “A olhar o mágico mar / Ponte infinita / (que quando morro me ressuscita) / Contemplo todo o mundo... / Que é tão pequeno!” No poema “Stress”, é o desafio: “A vida impõe / A cada dia / A cada hora / A cada minuto / A cada segundo / As coisas todas deste mundo / Meu peito é pouco... / E range”.

Para quem viveu, como eu, durante oito anos próximo ao mar, o poema que ficou gravado na memória foi “Psiu”: “Esparsos / pequenos pontos escuros ao longe / são barcos pescadores solitários / tangendo sem a mínima intenção / a linha tênue do horizonte / acordando a manhã / que silente absoluta se anuncia / para o barulho trepidante / que os homens fazem do dia”.

Um livro de poemas é para ser lido, relido – e depois, não deixá-lo na estante da biblioteca: deve continuar ao nosso lado, no criado-mudo, na mesa de trabalho. Devemos buscar nele o que não encontramos sempre na vida cotidiana: a magia de um novo mundo. Deve ser para os leitores a porta de entrada para o labirinto da imaginação.

Pedro Paulo me disse que tem dezenas de poemas aguardando publicação. Por que a poesia e os poetas não estão presentes, sempre ao nosso lado, nos apoiando na dura batalha de encarar o nosso destino?

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